Ontem me perguntaram numa mesa de bar como é que eu sabia que eu sou bipolar. Boa pergunta.

Quando eu tinha 13 anos de idade eu e minha família sofremos um acidente de carro muito sério. Nesse acidente meu pai morreu e eu e minha irmã ficamos muito machucadas.

Eu tive, entre outras coisas, um traumatismo craniano. Durante muitos anos eu tive que fazer tomografias e vários exames para ver a evolução das sequelas desse traumatismo.

Sinceramente, eu não lembro de praticamente nada sobre esse acidente e sobre muita coisa da minha vida antes dele, mas eu lembro claramente que eu mudei da água para o vinho.

Antes eu era muito tímida, muito estudiosa, muito recatada, o orgulho de qualquer família, sabe? Era muito envergonhada e mal conseguia me comunicar com as pessoas. Depois do acidente eu mudei completamente.

Eu passei a ser extrovertida, a falar com todo mundo, a me vestir de forma completamente diferente, a falar palavrão, enfim, virei outra pessoa.

Minha mãe me colocou num psicanalista, me levou em vários tipos de médicos e especialistas buscando me ajudar e descobrir o que estava acontecendo comigo, até que me diagnosticaram como Maníaca-depressiva (naquela época ainda não usavam Transtorno Bipolar).

A minha mãe era neurologista, não era leiga nas buscas que estava fazendo.

E pra falar a verdade, eu estava seguindo um padrão que já acontecia há anos no lado paterno da minha família. Meu bisavô, meu avô, e possivelmente meu pai também eram bipolares.

A minha bipolaridade não tem relação com o meu traumatismo craniano, mas ele pode ter desencadeado a doença, que já existia no gene da família.

Então a minha mãe me levou num homeopata e tentou me tratar com homeopatia e floral até onde deu, e quando não deu mais ela me levou num psiquiatra e eu passei a ser tratada com remédios psiquiátricos e terapia.

Depois que a minha mãe morreu de câncer eu larguei o tratamento e passei por um longo período de altos e baixos em relação a doença. De negação e aceitação. De surtos e períodos de depressão severa. Até de internação.

Mas fui ficando mais madura, casei com um homem incrível que desde o início me aceitou com todas as nuances da doença, comecei a entender melhor como isso me afeta e hoje em dia dificilmente tenho crises que afetam a mim e as pessoas a minha volta.

E meu melhor remédio não tem tarja preta e saiu de dentro de mim, chama-se Sophia.