Acabou de acontecer uma coisa interessante na minha vida. Eu estava na casa de uma querida amiga e ex-aluna que me conhece há quase 17 anos quando começamos a falar do buraco que existe na minha cabeça devido ao TCE que eu tive quando tinha 13 anos.

Não falo muito nesse assunto. Não falo porque não lembro, não sei direito como, o que ou quando aconteceu, tive amnésia parcial e meu pai morreu nesse acidente onde eu “ganhei” esse buraco na cabeça.

Pra quem não sabe, quando eu tinha 13 anos eu e minha família sofremos um grave acidente de carro em que tragicamente perdemos o  meu pai. Além da morte dele, minha irmã sofreu graves ferimentos e eu tive um TCE por causa de um  daqueles rádios “micro system” portáteis que tinham uma quina bem afiada.

Além do traumatismo eu tive uma perna quebrada, e outras coisas menos importantes, mas o que ninguém sabe é que eu perdi cerca de 30% do meu cérebro e tenho um buraco dentro da minha cabeça por causa disso. De verdade. Um buraco na cabeça.

Caros e caras, embora eu escreva muito, como se fosse um diário às vezes, ninguém sabe nada da minha vida, nada do que existe dentro de mim, das minhas lembranças, dos meus traumas, das minhas tristezas mais profundas e saudades. Ninguém me conhece de verdade.

Meu pai era a pessoa mais importante da minha vida e a que eu mais amava também. O buraco na minha cabeça é completamente ÍNFIMO perto do imensurável buraco que existe dentro do meu coração e da minha alma.

Não adianta conversar muito comigo sobre isso. Eu não lembro. O neurologista me explicou que por causa desse buraco eu teria sequelas, mas na verdade, a única sequela complicada e grave que eu tive foram os lapsos de memória, que de acordo com a explicação dele seriam preenchidos pelo meu cérebro com imagens e histórias que não aconteceram em algumas das vezes.

O meu Transtorno Bipolar não foi causado pelo TCE. Nem o meu TDAH. Mas o TEPT sim, por causa dele e de tudo que aconteceu, além de vários traumas que aconteceram depois e que conto em algumas postagens.

Odeio auto-piedade. Odeio que tenham “peninha” de mim.  Raramente lembro de tudo isso. Mas, hoje, conversando sobre o assunto me dei conta do quanto as pessoas não conhecem da minha história.

Muitas pessoas olham para mim, me julgam por tantas coisas, mas não sabem nada do que eu passei. E a maioria me define apenas pelo Transtorno Bipolar e/ou pelo TDAH. O TEPT praticamente ninguém sabe que eu sofro e trato. Às vezes me pergunto por que tive uma vida tão intensa e complicada.

Esse buraco na minha cabeça é uma placa. Um sinal em neon. Uma marcação “em ferro e fogo”, ou eu deveria dizer “em espaço vazio”. Ele é a assinatura do início da minha história, pois eu existo antes do TCE e depois do TCE, antes da morte do meu pai e depois da morte do meu pai, antes do acidente e depois do acidente.

Sinceramente, não lembro direito quem eu era antes e não sei direito quem eu me tornei depois.

Esse buraco na minha cabeça é pra sempre! Ele é a prova de que eu sobrevivi, do que eu passei e do que eu perdi. Na vida, na alma e no cérebro.