Hoje não acordei bem. Vida de bipolar não é só curtição e emoção. Não é só doideira e euforia. Hoje é um daqueles dias de se esconder debaixo da cama com os meus demônios.

Eu pensava que eu estava conseguindo viver um momento muito foda porque eu estava tendo bastante tempo sozinha enquanto meu marido e minha filha ficavam fora de casa ocupados com trabalho e estudos.

Eu me mantinha ocupada, extremamente acelerada, tinha minha rotina, meus horários, minha programação, minhas manias. Todos os meus dias eram meus, só meus. E até a parte destinada a eles faziam parte dessa minha agenda, dessa minha programação.

Quando começaram as férias, tudo mudou. Os dois passaram a ficar dentro de casa vinte e quatro horas por dia. Eles passaram a invadir essa minha rotina.

Eu não acordava mais sozinha. Eu acordava com a minha filha me cutucando perguntando pelo almoço, ou por alguma outra coisa. Ou acordava com o meu marido me chamando. E eu me escondia debaixo da cama com os meus demônios.

Eu levantava da cama e não tinha mais que cuidar dos meus próprios assuntos. Eu tinha que cuidar dos assuntos da família. Porque eu era responsável pela parte funcional da família: refeições, roupas limpas, casa limpa…

Durante o período letivo, eu tomava conta dessas coisas no meu ritmo, na hora que eu colocava na minha agenda, na minha rotina. Eles encontravam tudo pronto e não fazia diferença em que hora havia sido feito.

Nas férias, isso ficou complicado. Cada um queria fazer uma coisa, cada um tinha uma vontade, cada um queria uma coisa numa hora. E eu, que tinha toda uma rotina só minha, fiquei completamente invadida, em silêncio. E eu me escondia debaixo da cama com os meus demônios.

Mas foi pior do que isso. Eu fiquei paralisada. Eu não consegui fazer nada. Eu não conseguia fazer comida, não conseguia limpar a casa, não lembrava de lavar roupa, só ficava na cama, deitada, como uma doente. Como uma deprimida. E não percebia o que estava acontecendo.

Meu marido e minha filha começaram a fazer as tarefas de casa. Eu praticamente nem notava. De vez em quando rolava uns escândalos, umas discussões. Eu comecei a me sentir de férias. De férias das tarefas domésticas. Comecei a achar que era a minha vez de descansar de tudo o que eu fazia normalmente.

Mas também parei de fazer tudo o que eu costumava fazer. Andar, frequentar as reuniões que eu frequentava, ir à academia, passar no supermercado depois da academia, enfim, a minha rotina sagrada e super importante para a minha saúde mental.

Aos poucos, a cama começou a ser mais e mais parte do meu corpo e vice-versa. E eu comecei o padrão de todo dia acordar com algum tipo de dor, ou doença, ou problema. E não notei no início. Só me escondia debaixo da cama com os meus demônios.

Hoje eu acordei triste, com vontade de chorar. Acordei sem motivação nenhuma. Meu marido me disse o quanto estava decepcionado comigo e chateado, pois eu passei a semana inteira sem fazer absolutamente nada, deitada na cama.

Primeiro fiquei puta. Tipo, foda-se, faço tudo o ano inteiro, porra, vai se foder e coisa e tal. Depois, deixei pra lá a reclamação dele, e notei que eu não percebi o mais importante: eu estava entrando em depressão aos poucos, sem perceber. Essa merda de doença estava me engolindo, me enganando, de novo.

Agora, estou desesperada. Não sei muito bem o que fazer.

Primeiro penso que tenho que agradar o meu marido, pois o amo. Quero levantar e arrumar a casa, e “mostrar serviço”, mesmo com a porra da cólica menstrual que estou sentindo, e o desânimo, e a dor no dente e o caralho a quatro.

Sou super feminista e coisa e tal, mas compreendo a reclamação dele. É o último dia de férias dele. Ele quer curtir. Ele cresceu numa casa criado por umas vinte mulheres, todas com sangue italiano, muita gritaria e ordens, e tudo limpo o tempo todo. Eu entendo ele, eu conheço a família dele, a matriarca, a casa delas.

Mas, também tenho que cuidar de mim. Porra, depressão não pode rolar. O que eu faço? Será que é só começar as aulas e eu voltar à minha rotina que tudo vai ficar bem? Será que eu espero um pouco ou já grito por socorro agora?

Estou sentindo muita falta da academia. Será que isso está contribuindo? Volto correndo pra lá?

Eu que sou super decidida, super acelerada, super independente, super 220v, super tudo, estou murcha. E, sinceramente, a minha única vontade agora é ir pra debaixo da cama com os meus demônios e ficar quietinha, encolhida, balançando devagarzinho, esperando isso tudo passar.

Quero colo!