Dia dos finados não devia existir.

Já é dolorido lembrar das pessoas que se foram todos os dias da minha vida, mas ter um dia especial para lembrar disso com exclusividade chega a ser crueldade.

Preciso confessar que hoje em dia não sofro tanto, não fico tão deprimida ou tão desesperada.

Nunca fui ao cemitério visitar o túmulo de ninguém, mas sempre tive aquela sensação de que era um dia que eu tinha que dedicar para lembrar da existência delas.

Eu perdi muita gente, minha família era muito pequena e meus pais eram filhos únicos.Então não tive tios, primos próximos, casa cheia.

Infelizmente meus pais não tinham uma relação próxima com os nossos parentes, então também não tive contato com os parentes que seriam relacionados aos meus avós, somente com alguns deles e mesmo assim, uma relação distante.

Perdi meu pai, aos 13 anos, minha mãe aos 23, depois fui perdendo meus melhores amigos que morreram muito cedo, com 28 anos, e depois meus avós que morreram em janeiro, outro em fevereiro e outra um ano depois na véspera do meu aniversário sendo enterrada no dia do meu aniversário.

Hoje somos eu, minha irmã e meu irmão. Só nós três. E as famílias que criamos.

Não choro mais, só sofro, só sinto aquela dor e aquele vazio nesse dia. Sofro mais nos outros dias, em momentos que me lembram eles.

Penso em que tipo de avós seriam meus pais. Que tipo de vida eu teria se eles não tivessem morrido.

Penso em porque não temos contato com nossos parentes, descendentes dos nossos tios avôs e avós. Penso em todos os surtos que eu tive após cada morte.

Penso no medo que eu tenho que meus irmãos, meu marido e alguma das nossas crianças morram.

E nas mortes que ficaram mal resolvidas dentro de mim. Dia de finados é uma bosta! Pra que inventaram isso? Qual o sentido de viver um dia para isso?