Pensei muito se eu deveria escrever esse post, mas eu já escrevi sobre tantas coisas pesadas no meu blog e eu não acho que deveria deixar isso de fora. Vou tentar falar de maneira bem leve sobre a dor de ser violentada e poupar os leitores dos detalhes e de tudo o que for possível.

Minha primeira lembrança de abordagem sexual surgiu durante uma sessão de terapia e, pasmen, aconteceu quando eu era muito criança. Nunca contei isso para ninguém. Não vou falar mais sobre isso porque não quero expor isso para a minha família e para pessoas que conheciam esse amigo dos meus pais.

Eu tive várias situações de assédio e violência sexual na minha vida, pois inicialmente eu não sabia como lidar com a minha sexualidade e a minha sensualidade, e eu provocava sem saber que estava provocando, e isso gerava reações do tipo “Você pediu!”, “Você quer”. E eu acabava tendo que lidar com rapazes e homens que achavam que eu devia alguma coisa a eles.

Muitas vezes sofri a dor de ser violentada de uma forma mais branda, com beijos forçados, mãos sendo presas por homens muito fortes, quadris sendo pressionados contra paredes por pênis eretos dentro de calças de homens bem maiores do que eu, e coisas do tipo.

Isso também é horrível, é claro. Eu aprendi a relativizar, a aguentar a humilhação e a dor até um determinado limite e a fingir aceitação e prazer para conseguir fugir. Aprendi que lutar, em alguns casos, era pior e mais perigoso. Isso me salvou muitas vezes. Ter sangue quente não ia me ajudar em nada. Ser mais inteligente que eles sim.

Tive que aprender a beber por causa disso. Por isso virei a fodona que bebia mais do que homem. Eu tive que aprender a aguentar a bebida mais do que eles para aguentar e ficar em pé depois que eles caíssem. E acabava me tornando amiga deles e sendo respeitada. E ganhava proteção. E podia sair e dançar tranquila. Sempre tinha homens me protegendo.

O foda é que eu sempre chamei muito a atenção. Tinha peitão, meus olhos saltavam na minha cara, cabelão cheio e cacheado, sempre falei muito alto e sempre falei muito palavrão, e o meu sangue quente também não ajuda. E outra coisa, eu sempre dancei pra caralho. Isso tudo era um preço alto a pagar na hora de eu sair pra me divertir.

Apesar de tudo isso, eu consegui me proteger, mesmo com alguns hematomas e algumas porradarias, por anos. E, por incrível que pareça, só perdi a minha virgindade prestes a fazer 18 anos. Sim, eu permaneci virgem até essa idade!!! Mesmo passando por tudo isso. Mãos, dedos, empurrões, lugares fechados, armadilhas, mãos presas, pressão no corpo e nos quadris, tudo isso.

Uma das piores vezes aconteceu quando fiquei com um garoto no condomínio e fomos para o play do edifício dele. De repente estávamos praticamente deitados num sofá. Ele enfiou a mão na minha calcinha e começou a enfiar os dedos dentro da minha vagina. Eu fiquei tão assustada que pensei que ele estava me penetrando e pedi para ele parar.

Eu realmente achei que estava perdendo a virgindade. E ele não parava. Eu comecei a me debater e a gritar. Ele puxou a mão e começou a rir de mim. Eu chorava tanto e ele só ria da minha cara. Eu devia ter uns 15 ou 16 anos e achava que tinha perdido a virgindade ali. Naquele momento eu senti a dor de ser violentada.

Foi horrível.

O problema piorou depois de perder a virgindade. Parece que anunciam num jornal, ou numa rede social (Porra, na época não existia nada disso, redes sociais, celulares, não existia merda nenhuma ainda).

Os homens acham que só porque você não é mais virgem sua vagina está liberada pra “geral”. Não, não está. Queridos, a vagina é minha, eu dou pra quem eu quiser. E sou seletiva. Sai pra lá!

A minha primeira vez foi um “evento” e não foi. E depois o sexo passou a ser uma coisa natural e íntima entre mim e quem eu escolhesse.

Mas algumas vezes não foi assim. Eu fui estuprada, de forma cruel, vergonhosa, nociva e triste. Vou contar apenas sobre uma das vezes a dor de ser violentada.

Nós éramos namorados. Ele era um psicopata, mas eu não sabia, só descobri depois, no final do relacionamento. Quando descobri ele já tinha ameaçado se matar quando eu disse que ia terminar e depois me ameaçado de morte e ameaçado a minha família de morte. Apenas alguns amigos mais íntimos e minha mãe sabiam disso.

Durante o nosso relacionamento ele conseguiu me convencer de uma série de mentiras, cada uma mais absurda e insana do que a outra, pois como todo psicopata ele era bastante sedutor e manipulador. Eu passei a viver como se estivesse numa síndrome de estocolmo. Eu dormia com ele na varanda da casa da minha mãe como se fosse nossa casa.

Eu cozinhava para ele, levava almoço no trabalho dele, lavava as roupas dele. E ele me convenceu a termos um filho. E eu engravidei. Minha mãe descobriu e me obrigou a fazer um aborto. Eu cheguei em casa da clínica e tinha que ficar de repouso e sem sexo por 40 dias. Tinha um rolo imenso de atadura dentro de mim.

Alguns dias depois ele mandou eu sair da cama da minha mãe, onde eu estava dormindo e voltar a dormir com ele na varanda. Chegou a hora de eu tirar o imenso rolo de atadura de dentro de mim. Eu estava destroçada por causa do aborto. Eu entendia a minha mãe, mas não queria ter feito. A dor emocional e física era indescritível.

Assim que eu tirei a atadura ele disse para mim que íamos fazer outro filho imediatamente. Eu disse que estava de quarentena e que não podia ter relações por 40 dias. E que estava com muita dor. Ele disse que Deus tinha dito para ele que nós íamos ter um filho e mandou eu tirar a calcinha. Eu disse que não. Ele perguntou se eu não amava ele, se eu não queria ter um filho com ele.

Eu comecei a chorar. Ele disse que a minha mãe estava contra nós. Que todos estavam contra nós. Que estavam tentando impedir a gente de ter o nosso filho e de sermos felizes. Que ele não ia deixar isso acontecer. Eu comecei a chorar mais. Ele começou a abrir a calça dele e a tirar a cueca.

Ele acariciava o meu cabelo e me chamava de “minha flor”. Eu só sentia um desespero imenso dentro de mim e o meu corpo paralisado de terror e de dor. Ele abaixou a minha roupa e tirou a minha calcinha. E ficava repetindo coisas sobre nosso filho, sobre todos estarem contra nós, sobre eu ficar tranquila que estava tudo sob controle e que eu podia deixar tudo com ele.

Eu não conseguia respirar. Só pensava no aborto que eu tinha acabado de fazer. Pensava na minha mãe. Tremia de medo. E de repente senti ele entrando dentro de mim “a seco”. Senti ele passando pelas cicatrizes que ainda estavam em carne viva dentro de mim. Pelas texturas da atadura que tinha acabado de ser retirada. Pela secura que era o túnel interno em mim.

Senti uma dor que eu não conhecia. Não conseguia emitir nenhum som. Ele tapou a minha boca. Entrava e saía como se eu estivesse lubrificada e morrendo de prazer, nem parecia que eu era um deserto por dentro, como areia. Mas eu olhava para ele e via que ele estava em uma missão, estava cumprindo um trabalho. O trabalho de me engravidar. De ter sucesso no fracasso que ele teve por causa do aborto.

Eu via na expressão dos olhos dele que ele estava tendo dificuldade em me penetrar. Mas ele forçava ainda mais como se desistir não fosse uma opção. Era uma “estocada” atrás da outra. Eu sentia como se estivesse sofrendo sexo anal ao invés de vaginal.

A dor era tão forte e tão intensa que parecia que eu sentia em todos os outros órgãos do meu corpo também. Quando tentei mexer as mãos ele segurou as duas com a outra mão dele e me prendeu. Eu arregalei os olhos de tanto terror. O pênis dele mal conseguia entrar e sair tamanha era a bagunça por causa da recuperação do aborto de dias atrás.

Eu não conseguia mais chorar. Acho sinceramente que eu desmaiei. Só sei que tudo aconteceu mais rápido do que poderia ter sido. Ele acabou, colocou a roupa, mandou eu me arrumar e disse – Pronto minha flor, agora é só esperar pelo nosso filho.

Eu não consegui me mexer. Jorrava sangue. Tive que colocar outro rolo de atadura dentro de mim. Eu estava em estado de choque. E a dor… A dor era surreal. Aquele era o mesmo homem com quem eu tinha trocado juras de amor, com quem tinha planejado me casar meses antes. Naquele momento eu ainda não tinha noção do psicopata que ele era.

Eu era um corpo jogado no chão da varanda, jorrando sangue, latejando de dor, largado como se fosse uma reprodutora que tinha dado um pequeno defeito há dois dias atrás. Meus pulsos estavam marcados pela força com que ele segurou e minha boca também. E ele cagou para as minhas lágrimas e meus pedidos para parar e quando eu falei da quarentena.

Não contei nada para ninguém. É a primeira vez que falo disso. Graças ao Criador, eu não engravidei de novo, acho que nem era possível depois de um aborto que tinha sido feito há 2 dias. Ele ainda fez isso algumas vezes.

Me livrar dele foi bem complicado. Envolveu polícia, fuga escondida dentro de carro, proteção policial, muita terapia, dias escondida na casa de outras pessoas, em outro estado, enfim, isso fica para outro post.

Essa foi a pior violência sexual que eu sofri na minha vida toda até hoje. Depois que amadureci fiquei mais ousada e meu sangue ficou mais quente. Acho que hoje em dia eu morro, mas não sofro um abuso sexual. Morro com um tiro, uma facada, ou levando porrada, mas morro lutando e me defendendo. Não sei.

Difícil julgar a situação dos outros. Hoje em dia eu não me coloco em situação de risco. Quando saio sozinha, sem o meu marido, não abuso da minha auto-confiança. Tenho noção de que ainda provoco reações nos homens. Ainda sou desejada e ainda ouço bastante coisa na rua.

Tenho uma coisa importante a dizer sobre o tema. Nós mulheres também somos um algoritmo importante na equação da violência sexual. Tome cuidado para não ser O algoritmo mais importante. Não subestime o resultado dessa equação. O que você veste, fala, e faz influencia SIM nesse resultado. Vamos parar de ser hipócritas.

Não é sempre que influencia, como no meu caso, mas às vezes influencia sim. Não abuse da sorte, não provoque o destino e nem os homens. Vai que você provoca um psicopata ou um babaca?