Acabei de voltar de uma saída com uma galera. Cheguei em casa e bateu uma “bad” do caralho. Fiquei pensando nas coisas que eu faço quando estou com outras pessoas e em como fico puta depoispor causa de algumas dessas coisas. Ninguém sabe que quando eu saio, saio eu e o monstrinho dentro de mim.

Muita gente fica dizendo que isso acontece com todo mundo. Vão se foder! Quem tem transtornos psiquiátricos tem “literalmente” outras pessoas vivendo dentro de si. Não é uma exclusividade dos esquizofrênicos, e não é igual às outras pessoas.

E é tipo uma relação de amor e ódio, exatamente como eu me sinto quando estou na fase maníaca. Rola um tesão do caralho, me sinto linda, foda, invencível, inatingível, imbatível, me sinto espetacular, mas lá no fundinho eu sei que é um período em que faço um monte de merda e fodo com a vida das outras pessoas.

Quando eu saio é tipo isso. Saio eu e o monstrinho dentro de mim. E esse filho da puta é alimentado pelas outras pessoas e pelos acontecimentos. Por exemplo, se eu bebo esse monstrinho vira o “abominável monstro” da vida social.

O que me deixa puta é saber que as pessoas não tem noção de como eu sou diferente daquela “persona” criada por causa desse monstrinho e de como eu fico mal quando chego em casa.

As pessoas não tem noção de que quando eu falo – “eu sou bipolar”, na verdade é como se eu tentasse explicar porque é que elas vão ouvir eu falar tanta merda, tanto palavrão e me comportar da maneira que eu me comporto. É quase como se eu quisesse pedir desculpa.

Quantas vezes eu falo e faço coisas que me arrependo de fazer um segundo depois. Coisas que vão influenciar negativamente a maneira como os outros me veem. Coisas que farão eles se afastarem de mim.

Ninguém tem ideia da luta que é travada entre eu e o monstrinho dentro de mim porque as vezes, pra variar, eu não quero ser aquela mulher que bebe todas no bar como um homem, que fala palavrão como se tivesse nascido na “zona”, que faz o tipão “mulher gostosa que pega geral”, que dá aquela gargalhada que dá pra ouvir do outro quarteirão.

Fiquei pensando pra cacete nisso quando cheguei em casa hoje. Porque eu cheguei e o tal monstrinho ficou do lado de fora. Eu cheguei em casa e fui cozinhar pra minha filha uma das comidas preferidas dela. Fui brincar com meus gatinhos. Preparei um chá de hibisco. Dá pra entender?

O monstrinho vive dentro de mim, mas não sou eu. Ele não aparece o tempo todo, ele aparece quando eu saio, quando estou com outras pessoas, quando estou no bar, quando tem homem dando em cima de mim, quando eu bebo, quando eu fico incomodada com alguma situação ou com alguém.

Hoje por exemplo eu fiz uma coisa muito escrota com uma pessoa porque eu cismei que tinha que salvar “um amigo”. Uma menina apareceu e fez uma pergunta pra ele. Eu estava do lado. Já tinha bebido, estava mega excitada porque há meses não podia beber por causa da quimioterapia e hoje eu estava podendo, e eu me meti no meio dos dois e dei uma resposta super escrota pra ela.

Quando estava em casa pensando nisso eu fiquei super mal. Porra, que direito eu tenho de tratar mal a menina? Ele não é nada meu, não é meu irmão, não precisa de ninguém pra defender ele.

Depois ainda me senti uma palhaça, pois me disseram que ele tinha beijado ela, ou seja, de repente o cara queria ficar com ela, e eu estava ali atrapalhando.

Mas é a tal da história de sair eu e o monstrinho dentro de mim.

Eu sento na frente do meu psiquiatra e uma voz dentro de mim quer gritar: Brunoooo, me ajuda pelamordedeus!!!

Galera, a luta do bipolar é diária, minuto a minuto. A gente toma os remedinhos, mas eles não fazem milagre. A gente toma os remedinhos, mas às vezes um remédio que estava fazendo o efeito esperado num determinado momento, deixa de fazer em outro.

Estabilizador de humor me ajuda a não enlouquecer e ficar descontrolada, mas o transtorno bipolar é como um “gremlim” que é alimentado de acordo com vários fatores externos.

E pra controlar esse monstrinho eu teria que tomar medicações que me deixam completamente “castrada”, apagada, morta-viva. São medicações que me deixam meio zumbi. Então não dá, não rola, preciso trabalhar, estudar, fazer comida, cuidar de casa, cuidar de filha…

Queria que as pessoas soubessem que eu não sou tão escrota. Até que sou bem legal e consigo ter uma conversa decente, com um vocabulário imenso sem palavrões, escatologias e putarias, quando consigo controlar esse monstrinho.

Esse monstrinho hoje tava mais forte porque eu não estava com a “minha” galera. Estava com pessoas que eu adoro, mas que não sabem disso. Pessoas que eu queria muito que me vissem como amiga mesmo, e não como a mãe ou a esposa de alguém. Pessoas que me tratam bem mas não me deixam fazer parte do “grupo”, não me convidam pra sair, não falam comigo a não ser em situações assim.

Enfim…

Acho que eu ainda vou falar muito desse monstrinho. Ele já destruiu momentos importantes da minha vida e muitos relacionamentos. Porque nem todo mundo tem o carinho e a maturidade de vir conversar comigo quando eu falo ou faço alguma merda.

E quando as pessoas entenderem que existe, de fato, uma diferença entre eu e esse monstrinho dentro de mim, e conseguirem enxergar quando é ele e quando sou eu, tudo ficará muito mais fácil.

Ser bipolar às vezes é foda!