Eu estava na UTI do Barra Dor. E de repente estava no quarto.

Eu não queria estar ali, não devia estar ali. Algo tinha dado errado. Não era para eu estar ali. As enfermeiras entravam e perguntavam se eu ia tentar de novo e eu respondia que ia. Elas respondiam se eu sabia porque estava ali e eu respondia que sabia.

Tudo era muito confuso, pois estar ali não fazia parte dos planos, e lidar com tudo o que significava ainda estar ali também não.

Família entrava, visitas entravam, pessoas entravam e saíam como se eu tivesse tido uma pneumonia. Eu não tinha tido uma pneumonia. Não era para eu estar ali, não era para eu estar num quarto de hospital, não era para eu estar viva.

Eu sorria para as pessoas e falava com elas como uma atriz. Por dentro estava revoltada, frustrada, destroçada, e me sentia uma imbecil por não ter conseguido fazer uma coisa que parecia tão simples.

Até que um dia uma enfermeira entrou e me avisou que eu seria transferida para o hospital psiquiátrico Saint Roman. Alguém tinha assinado os papéis, alguém era responsável por mim, eu tinha perdido o direito de ser responsável por mim e coisa e tal, e ia ser melhor, e ela falava sem parar, e eu só pensava o que aquilo significa exatamente.

Meus familiares fizeram uma mala para mim com alguns pertences, alguns que eu tinha solicitado. Uma ambulância chegou e fui avisada que eu não podia ser transferida a não ser através de uma ambulância. Me colocaram lá dentro amarrada numa maca e fomos para o tal hospital, lembro que era tarde.

Chegamos no hospital Saint Roman. Minha mala foi aberta e completamente vasculhada e vistoriada. Todas as minhas coisas foram mexidas. A maioria foi retirada e proibida.

Fui proibida de ter espelho, lixa de unha, perfume, e uma lista interminável de coisas. Fiquei basicamente com algumas roupas. O material de higiene era bem básico e algumas coisas só eram dadas na hora do uso com acompanhamento de enfermeiras.

Para se entrar na clínica era necessário passar por várias grades. Digo, várias mesmo. Desde a grade do portão, da recepção, da portaria, até várias outras, de vários níveis depois. Todas trancadas.

Me levaram para um quarto simples que eu dividia com outra interna. Uma mulher de cerca de 50 anos, classe média alta, muito culta. Duas camas de solteiro bem simples, roupa de cama bem simples e básica, dois móveis bem simples para guardar as roupas, um banheiro para dividirmos sem praticamente nada dentro, nada de vidro ou similar, nem os ferros usuais do banheiro existiam.

Entraram com uma bandeja com alguns remédios e mandaram eu dormir.  Na clínica havia horário para tudo.

No dia seguinte soube que a clínica tinha alguns andares e que cada andar era referente ao grau de gravidade da patologia psiquiátrica do paciente. Haviam várias salas de terapias alternativas como pintura, canto, dança, essas coisas. Um refeitório estilo internato de filme de orfanato ou de prisão mesmo. Não havia luxo, frescura, tratamento diferenciado, nada disso.

Tinha uma piscina. Isso era um erro. Eu estava em surto e não tinha biquini. Vi a piscina.

Coloquei uma calcinha preta do tipo sem costura, um sutiã estilo bustiê de cetim rosa retrô e fui pra piscina de roupas intímas deitar nas espreguiçadeiras para pegar sol e conversar com outra interna que estava lá (ela tinha o costume de se cortar).

Um paciente esquizofrênico passou e quando me viu entrou em surto e teve que ser contido. Eu fui convidada a me retirar da piscina e proibida de voltar. Aumentaram os meus remédios e fiquei dopada.

Odiava as terapias, me sentia uma idiota de 2 anos de idade. Odiava a comida e o refeitório. Me sentia uma prisioneira comendo naqueles refeitórios de presídio, todo mundo junto, sentado em longas mesas, se servindo de panelas gigantes.

Tínhamos direito de dar um telefonema por alguns minutos e só, na verdade quando conseguíamos uma enfermeira simpática, pois em geral nem isso conseguíamos.

Tínhamos consultas com um psiquiatra de vez em quando e um tipo de terapia em grupo que era bem constrangedor e desagradável.

Tínhamos horários como num quartel. E ajudávamos nas tarefas do hospital, não em todas, mas em algumas. Não gostava daquele lugar e nem das pessoas que tratavam de mim, mas não tinha como me comunicar com minha família e pedir para sair.

Alguns de nós mal conseguíamos nos comunicar. Alguns não queriam.

Muitos não queriam estar ali, estavam obrigados. Eu meio que me sentia assim, mas sentia que se não ficasse ali, se saísse dali, morreria imediatamente, na verdade na época, em surto, era o que eu queria.

Tinha uma coisa positiva – todos que estavam ali se entendiam. Nós éramos os únicos que podíamos entender o que sentíamos, o que queríamos, o que fazíamos, quem éramos e porque éramos daquele jeito.

Minha lembrança é de grades, silêncio, paredes, comida ruim, muita tristeza, tanta tristeza no ar que mal dava pra respirar. Incerteza do futuro. E ao mesmo tempo uma sensação de estar num universo paralelo.

Será que eu tinha sido largada ali pela minha família e nunca mais iria vê-los? Será que ficaria ali para sempre? Será que nunca mais iria sair dali?

Até que um dia meu marido apareceu. Eu tinha sido internada sem ele ser avisado e sem ele autorizar. Acho que meu irmão tinha sido o responsável por mim no momento da autorização e da transferência para o hospital psiquiátrico. Na verdade sobre isso não sei direito de nada.

Meu marido entrou no hospital psiquiátrico e disse que queria me ver. Não deixaram. Ele disse que ia quebrar a “porra” toda, que ia botar o hospital Saint Roman abaixo, que ia chamar a polícia, que era meu marido, que ia processar, que ia “enfiar a porrada” em quem tentasse impedir…

Ele estava transtornado, pelo eu que soube depois. Consigo imaginar a cena. Consigo imaginar o pavor dele ao ver aquelas grades todas, ao ser impedido de me ver, de falar comigo, de saber como eu estava.

Eu não estava sabendo de nada. Estava dopada, trancada lá dentro, no meu quarto, há alguns dias.

Só sei que em algum momento ele me tirou de lá. Pegou minhas coisas e saiu arrastando tudo. Eu não lembro direito de nada.

Tenho pena das pessoas que ficam internada no hospital psiquiátrico Saint Roman. Aquele lugar é um inferno.  Não somos tratados com dignidade.  Tenho medo de parar lá de novo.

Só lembro que depois meu padrinho indicou um psiquiatra da confiança dele e eu passei a me tratar com ele. Tivemos que deixar nosso apt alugado, vender, jogar fora e largar tudo o que tínhamos e passar a morar com minha avó, pois o psiquiatra disse que eu tinha que ficar 24h sob a supervisão de alguém.

Foi radical desse jeito. Nós tínhamos nossa vida, nosso apt, nosso carro, eu frequentava a PUC, ele trabalhava do lado do nosso apt, a escola da minha filha também era lá.

Tínhamos tudo, uma vida formada, um apt lindo. E, de repente, por ordem do psiquiatra, meu marido abandonou absolutamente tudo, sem olhar para trás, para que eu pudesse ficar protegida, com a minha avó. Passou a morar num quarto comigo e nossa filha, dividindo um apt com minha avó, meu irmão, a empregada e uma babá.

Todas as chaves tinham que ficar escondidas de mim. Todos os remédios tinham que ficar escondidos de mim. Eu não podia sair de casa sozinha, nem para ir na padaria.

Minhas medicações eram dadas na minha boca, na hora em que eu tinha que tomar. Eu não podia ficar sozinha nem dentro de casa, pois não podia ficar perto de facas, venenos, perfumes, álcool, fogo, cordas, vidro, enfim, nada com que eu pudesse tentar me suicidar. E foi assim por um longo tempo.

E completamente dopada com as medicações. Faculdade trancada. Perdi meu estágio. Perdi tudo. O que na verdade não me importava, pois o plano não era ter continuado viva.

Hoje meu plano de saúde não cobre internação em hospital psiquiátrico.

Se eu surtar ou acontecer qualquer coisa parecida com o que aconteceu naquela época não sei pra onde vou ou o que farão comigo. Os hospitais psiquiátricos da rede pública estão falidos. Não existe psiquiatra no Caps do SUS da minha região. Não existe medicação gratuita para distribuição.

Quando li a reportagem abaixo fiquei pensando em mim. Em muitos como eu. No passado. No meu avô que se suicidou em 1946 (tem um post sobre isso no blog).

Será que ele teria ido para um lugar assim se não tivesse se suicidado? Quantos lugares assim ainda existem no Brasil, no mundo? Quem somos nós, os loucos? O que nós significamos para a sociedade?

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/08/loucura-normais-barbacena.html