Depois de muito refletir, de conversar com meu marido, de pensar se eu ainda teria “saco” para ter outro filho e começar tudo de novo, depois de ter criado uma filha de quase 16 anos, decidi que não queria passar por tudo isso logo agora que eu e meu marido  estamos conquistando nosso espaço como casal e perto da minha filha conquistar o espaço dela.

Nós usamos camisinha há 18 anos, pois eu fui informada de que não poderia usar pílula por problemas de saúde. Tentei colocar o DIU, mas tive problemas por conta da estrutura do meu útero, e fui informada que para colocá-lo teria que ser internada e passar por uma cirurgia com anestesia e tudo.

Não me adaptei ao diafragma e a nenhum outro método anticoncepcional, portanto fomos obrigados a adotar o uso da camisinha a nossa vida inteira.

Finalmente, após percebermos que não teríamos outro filho por causa de nossa idade, de nosso estilo de vida e de uma série de reflexões que fizemos, marquei a consulta com a ginecologista.

Entrei no consultório cheia de perguntas para fazer, mas determinada. Sentei e disse logo que estava ali porque queria ligar as trompas. A mulher me olhou como se eu estivesse louca, ou como se eu pretendesse cometer algum tipo de crime. Perguntou minha idade mais de uma vez, repetiu inúmeras vezes que o procedimento era irreversível, disse que eu teria que assistir palestras de planejamento familiar (que eu disse que não assistiria pois não precisava), depois disse que não era uma coisa simples, que precisava ter isso por escrito, pois não tinha volta.

Eu comecei a me irritar. Já passei dos quarenta anos. Tenho uma filha com quase dezesseis anos, sou casada há 18 anos com o mesmo homem, e não tenho a mínima intenção de começar tudo de novo logo agora que estamos começando a ficar mais livres para aproveitar a vida como um casal. Tivemos nossa filha logo depois de nos conhecermos, quase um ano depois. Nossa vida como casal foi ser pais da nossa filha. Não tivemos viagens a dois, momentos românticos, loucuras a dois, nada disso.

A mulher repetia que era irreversível, que eu devia pensar bem, que eu ainda era jovem (oooooi????), e colocava uma pressão do caralho para eu não fazer o procedimento. Me tratou como se eu estivesse ali para fazer um aborto ilegalmente. Por fim, viu que eu estava irredutível e me deu todos os papéis para os exames pré-operatórios dizendo que eu tinha que me preparar, pois era quase uma mini cesárea, que eu teria que ser internada, que a ligadura não tinha 100% de sucesso como método de prevenção anticoncepcional e não parava de falar.

Me irritei. Perguntei sobre a pílula. Perguntei se tinha mesmo problema se eu tomasse. Se ia me fazer mal, se teria interação medicamentosa com meus remédios psiquiátricos, se tinha perigo de eu engordar, pois eu tinha perdido muito peso com muito sacrifício, quais os riscos de efeitos colaterais. E, resumindo, saí de lá com os pedidos de exames e um pedido para a tal da pílula também.

Vi um lado da ginecologia que eu não conhecia. Dizem que no SUS é pior. Que não fazem em mulheres com uma certa idade e uma certa quantidade de filhos. Que elas tem que passar por uma série de palestras e entrevistas. Que existe uma fila enorme para fazer. Não sei, só ouvi falar. Mas acho que isso é um direito da mulher e que se fizessem isso não haveriam tantas famílias com dez filhos sem ter condições de criar. Pode ser que eu esteja errada. Pode ser que muitas mulheres tomem a decisão de fazer a ligadura cedo demais e se arrependam sem poder reverter a situação.

Mas ainda acho que é um direito e uma decisão da mulher. E que a responsabilidade de lidar com as consequencias dessa decisão também deve ser dela.

Eu vou fazer. Quero estar segura de que não vou engravidar pra ser uma mãe velha e cansada. Minha próxima função é ser avó, tia, tia avó. Mãe eu já sou e está bom demais. Perdi o timing para ter outros filhos. Meu tempo já passou.