Hoje fui pegar o resultado do exame de uma mamografia. Estava apavorada. Existiram vários casos na minha família de câncer e eu cresci acreditando que não passaria dos quarenta anos.

Eu já passei dos quarenta anos e resolvi fazer um check-up completo com todos os médicos que eu tenho direito e todos os exames que eu podia e o resultado não tem sido tão bom assim até agora, mas a mamografia era um dos que me deixava mais apavorada.

Demorei dois meses para conseguir pegar o resultado.

Segurei o envelope nas minhas mãos, desci no elevador, parei no hall da clínica e fiquei olhando para ele.

Pensei nos resultados dos outros exames que fiz até agora, pensei nas cirurgias que vou ter que fazer no útero, pensei nas doenças que descobri que tenho, pensei nos remédios que passei a ter que tomar por causa de colesterol e mais um monte de coisa chata e idiota.

Pensei nos anos que acompanhei a minha mãe e os meus avós vivendo com câncer e com várias doenças limitadoras. Sentei num banco. Tive vontade de fumar um baseado e tomar umas cervejas antes de ler.

Óbvio que não dava pra fazer isso. Abri bem devagar e li palavra por palavra. Ok. Tenho nódulos e linfonodos. Respirei fundo. Ok, são benignos, embora tenha um parágrafo em negrito dizendo que isso não signifique que eles não possam ser malignos. Ok.

Pensei por um instante no que eu ia registrar dentro de mim a respeito dessa informação.

Decidi que o resultado da mamografia é que está tudo bem comigo e ponto. Não tem nada de errado.

Não tenho câncer de mama. Isso é o que importa. Levantei do banco, guardei o exame na bolsa, caminhei debaixo de uma chuvinha deliciosa de volta pra casa e agradeci a Deus.

Não estou totalmente fodida, estou só um pouco fodida. Só um tumorzinho no útero, um mioma, uns probleminhas de insulina, colesterol, glicemia, e coisa e tal, e umas outras chatices da idade. Nada demais.

Já entrei na dieta, já perdi 10 kg, agora eu ando pra lá e pra cá e estou malhando.

Prometi a mim mesma que vou ser uma coroa forte, saudável, sarada e gostosa.

E vou viver muito e tirar da minha cabeça que nasci pra morrer cedo. Não é porque meus pais morreram cedo que isso tem que acontecer comigo também.