Eu demorei muito a ter coragem para escrever com completa honestidade sobre o assunto de hoje. Eu chamo ele de “meu amante ingrato”, e é assim que eu sinto que ele é pra mim, mas eu estou falando do álcool.

Eu não sou alcoólatra. Eu sou alcoólatra. Eu não tenho problemas com o álcool. Eu tenho sérios problemas com o álcool.

O envolvimento de pessoas com Transtorno Bipolar com drogas, álcool, vícios e compulsões é uma coisa praticamente certa. Eu diria que noventa e cinco por cento das pessoas que sofrem de Transtorno Bipolar tem problema com uma dessas coisas ou várias delas. Grande parte dessa porcentagem tem a vida destruída ou ceifada por isso.

Como toda bipolar (generalizando), na maior parte do tempo eu acho que eu sou muito foda e que bebo bem pra caralho. Digo que bebo mais do que homem, e na verdade em grande parte da minha vida foi assim mesmo. Eu sempre disse que não era alcoólatra, pois sempre achei que tinha controle sobre isso, mas depois de frequentar o A.A. eu posso afirmar que sou alcoólatra e que tenho problemas com o álcool.

Eu cresci em rodas de violão com os meus pais e seus amigos,  sempre tinha que ter muita cerveja, tipo, muita meeeesmo. E eu cresci associando o sucesso nos relacionamentos e a alegria da vida a esses encontros e à presença da cerveja na mão. Comecei a beber bem tarde em comparação com meus companheiros do A.A., mas depois que comecei não parei mais.

As pessoas acham que eu sou super extrovertida, mas a verdade é que eu não sou. A bebida é uma válvula de escape todas as vezes que eu saio com mais de uma pessoa, e é inerente à minha relação com algumas pessoas. É engraçado, pois eu não bebo sozinha, raramente faço isso. Se tiver bebida na minha casa é capaz de estragar, de passar da validade. Ela realmente está associada a minha interação com certas situações e com as pessoas.

Conforme fui crescendo o álcool passou a se tornar um amigo. Ele me salvava do silêncio, ele me tornava alegre, sexy, divertida, invejada, e eu gostava muito disso. Ele passou a ser oferecido para mim como uma droga e eu aceitei todas as vezes em que isso aconteceu. Até ele deixar de ser um amigo e se tornar um amante possessivo.

O álcool passou a exigir coisas de mim, ele passou a sentir ciúmes dos meus momentos de paz, passou a querer estar no meu nome e sobrenome, nos meus apelidos, passou a querer estar em todas as vezes em que tinha relações sexuais.

Ele exigia que eu o idolatrasse e levasse ele para todos os lugares. Ele queria estar comigo depois da faculdade, nas manhãs bucólicas na praia com a minha família, nas festas infantis, na minha empresa, na saída da empresa, dentro do avião, nas viagens para fora do Brasil. Ele começou a se tornar um amante exigente e inconveniente.

Passamos a não nos entendermos mais. Passamos a brigar. Eu comecei a me sentir incomodada com a sua presença e comecei a querer abandoná-lo, mas era cada vez mais difícil. Eu já tinha me tornado dependente dele. Era uma relação destrutiva, mas eu não conseguia sair dela. E as pessoas adoravam nos ver juntos, nos achavam incríveis, faziam questão da nossa presença em todos os lugares.

Quando me tornei adulta e comecei a perder as pessoas que eu mais amava e a ver elas morrerem uma após a outra foi ele que me consolou. Ele me colocou no colo. Ele me fez rir quando eu estava em prantos, fez eu me divertir quando eu estava em luto e me tirou de casa quando eu queria me esconder debaixo da cama. Ele me ajudou a dormir. Ele me manteve viva. Pelo menos era o que eu acreditava.

Mas ele estava feliz. Eu não queria mais ninguém, não ligava para mim mesma, estava gorda e inchada, mal conseguia andar de tanto cansaço, mil problemas de saúde. Tentaram nos afastar, eu passei a tomar remédios psiquiátricos mais fortes e que não poderiam ser ingeridos junto com ele, mas eu ignorei isso. Eu continuei nessa espiral louca de mãos dadas com ele, atentando contra a minha própria segurança.

Até que de repente, sem que eu planejasse, eu melhorei da depressão. Eu comecei a emagrecer rapidamente, passei a frequentar a academia três horas por dia, comecei a comer de forma saudável e fui eliminando tudo o que não combinava com a minha nova vida progressivamente. Isso o incluia. E fui me afastando do álcool. Comecei a evitá-lo. Entrei no A.A.

Então ele se tornou um amante ingrato. Ele cobrou tudo o que tinha feito por mim. Ele não aceitou que eu o largasse. Eu ia para as reuniões no A.A. e ele tentava me seduzir do lado de fora. Eu ia às festas e ele dizia pra mim – só um pouquinho; ninguém vai perceber; eu sei que você quer; vamos ir para um lugar mais reservado.

Como todo amante ingrato ele me machucou. Ele aproveitou que eu estava mais magra e me derrubou no chão, me fez ter apagões de memória, me levou para lugares que eu não sabia onde eram, agrediu a minha alma. Ele tentou me impedir de ir ao  A.A., ele colocou a minha família contra mim, ele afastou os meus amigos, ele traiu a minha confiança.

Mas eu consegui enxergar finalmente o amante ingrato que ele era. Consegui seguir o meu tratamento de saúde sem deixar ele interferir ou ser seduzida por ele. Consegui sair sem precisar da presença dele e aprendi o quanto sou divertida sozinha.

Hoje eu consigo falar disso tudo, dessa relação doentia e perigosa.

O álcool me roubou tanta coisa que eu nem conseguiria listar aqui. Ele me roubou momentos, me roubou amores, me transformou numa vagabunda tantas vezes que eu nem me lembro, me fez fazer coisas que eu nunca faria, destruiu relacionamentos que eram muito importantes para mim. Ele roubou minha inocência, minha delicadeza, o respeito das pessoas por mim.

Ele me agrediu tanto, mas tanto. Ele exigiu tanto de mim. Me fez chorar tantas vezes. Me fez machucar tantas pessoas. E me fez ser vil tantas outras.

Preciso confessar que hoje dói muito, dói pra caralho. Lembrar da vida com ele acaba comigo. Pensar em quantos dias não existem na minha memória por causa disso. Em quanto tempo eu demorei pra entender que não podemos viver juntos.

Não vou mentir e dizer que nunca mais. Não sei o dia de amanhã. É um vício que não tem cura, é uma doença. Tenho certeza de que ainda viverei vários momentos em que ele estará presente e talvez eu até o exalte, principalmente se estiver numa fase eufórica, na fase de mania.  Quando estou nessas fases eu me transformo em outra pessoa.

Eu tenho inveja das pessoas que conseguem lidar com o álcool sem se auto-destruir, sem se machucar, sem causar estragos.

Eu não consigo.

É a primeira vez que admito isso honestamente, de verdade, acreditando em cada palavra.

O álcool não fez nada sozinho. Eu me entreguei, eu aceitei tudo, eu amei ser seduzida por ele. Eu precisei dele mesmo quando ele estava me violentando das piores maneiras possíveis.

E eu espero que nada disso volte a acontecer.