Quanto mais a minha memória ameaça pifar de vez, seja por causa do alzhie., seja por causa do buraco causado pelo traumatismo craniano que eu sofri há 30 anos atrás, mais eu tento escrever as minhas lembranças para que fiquem registradas como pedaços de um puzzle.

Hoje eu entrei na loja Kalunga de um shopping perto de casa e me lembrei dos dias em que ia para o trabalho do meu pai no centro da cidade.

O elevador assustador dava frio na barriga pois parecia uma montanha russa na hora de parar no andar. As portas da entrada do edifício eram majestosas, imensas e pareciam algum portal para uma outra dimensão.

Papai sentava em sua mesa de madeira maciça, pesada, imensa, com pilhas de papéis cheios de números espalhados ao redor da máquina de calcular, daquelas antigas que liberavam uma fita gigantesca cada vez que calculavam algo.

Eu sentava em sua mesa e fingia que era uma caixa de supermercados apertando os botões da máquina e fazendo inúmeras contas inúteis.

A decoração era tão pesada, antiga, ainda do tempo do imperador (será?) e as janelas com moldura de madeira davam para uma das principais avenidas do bairro.

Nas vésperas das festas de fim de ano eu picotava pilhas e pilhas de papéis velhos do ano que ia terminar para a chuva de papel que ainda é uma tradição nessa época do ano.

Uma das imagens mais bonitas que eu tenho na memória, todas aquelas caixas com papéis picados sendo jogados pelas janelas por homens de terno e mulheres de tailleur felizes com o final de mais um ciclo e curtindo como se fossem crianças.

A lata de “sukita” que ele colocava dentro do ar-condicionado para manter gelada até a hora do lanche e um monte de papéis para eu desenhar. A velha máquina de escrever elétrica onde eu criava poemas e histórias e a cadeira giratória que mais parecia um brinquedo de criança.

Hoje quando eu estava entrando nessa mega papelaria eu lembrei de uma das coisas mais legais do escritório do meu pai: o apontador de manivela que tinha uma base de pressão para ser colocado na beirada da mesa.

Se eu parar para pensar o tal apontador era algo jurássico (rs), mas era muito legal. Papai tinha que colocar a ponta do lápis dentro de um buraco e girar a manivela. Na época não era nada demais obviamente, mas hoje seria visto como um material alienígena por jovens que não conheceram um.