Hoje vou fazer um post mais relacionado com a doença, uma coisa que notei e que achei importante debater. Hoje vou dar o depoimento de uma profissional bipolar.

Há alguns meses eu tenho sido chamada para substituir professores da área de letras em uma escola quando eles tem algum problema, alguma doença e precisam ficar afastados. A coordenadora é muito amiga minha, trabalhou com o meu marido, e me conhece MUITO bem. Ela sabe do meu transtorno bipolar e do meu temperamento.

Minhas primeiras aulas na escola foram no início do ano quando estava numa crise eufórica aguda e não tinha percebido. Lembrem-se de que esse é o depoimento de uma profissional bipolar. Estou tentando mostrar como o transtorno afeta a nossa vida profissional.

Cheguei nas primeiras aulas “nível” fodona, professora legal, gente boa.

Pra vocês terem uma ideia eu fui com uma calça preta justa (não indecente, mas justa), uma regata larga que mostrava um pouco do meu sutiã preto e opaco por baixo, com a personagem Minnie fazendo cara de brava e os dizeres “Never tell me to calm down, it just make me more angry”.

Completei o “look” com uma bota estilo “roqueira”, vários acessórios no mesmo estilo e o cabelão solto. Praticamente 80% das tatuagens aparecendo inclusive.

Eu estava MUUUITO eufórica, com a minha auto estima “na casa do caralho”, pois tinha emagrecido quase 30kg, estava fazendo academia por cerca de 3 horas por dia, a fala cheia de gírias e palavrões (que obviamente eu não falava em sala de aula).

Como profissional bipolar na fase eufórica dei várias aulas para o ensino fundamental e ensino médio.  Dei aulas maravilhosas que eu amei, consegui extrair o melhor de cada aluno, principalmente porque naquele momento eu estava vivendo uma fase em que falava a linguagem deles e me sentia 20 anos mais jovem.

Eu era A melhor professora de inglês do universo.

Os alunos se apaixonaram por mim. Perguntavam das minhas tatuagens, diziam que não acreditavam na minha idade e que eu tinha uma filha, queriam saber como era a minha relação com ela, enfim, eles realmente se apaixonaram por mim.

Como toda bipolar na fase eufórica eu me achava invencível, imortal, inatingível, estava com uma energia imensurável, o fluxo das ideias acelerado, tinha crenças não realistas de aumento da minha capacidade e dos meus poderes, idéias de grandeza, aumento exagerado da minha auto-estima, um sentimento desmedido de alegria, bem estar, sensações de poder, grandeza, riqueza, inteligência e força exagerada, autoconfiança e otimismo exagerados, estava inquieta, agitada, exageradamente desinibida, com uma vida social intensa, tinha o comportamento bastante inadequado e provocativo ou mesmo ofensivo e agressivo, minha libido estava pra lá de 400% ou mais, eu erotizava tudo e não dormia.

Ufa!

Ah, peraí! Quero esclarecer que esses sintomas tinham a ver com a fase eufórica, mas nem todos estiveram relacionados com o meu lado profissional, como a minha vida social, minha libido, o comportamento inadequado e provocativo, por exemplo. PelamordeDeus!

Eu era a encarnação de uma deusa do Olimpo. Uma amazona, a mulher maravilha. Eu era de outro planeta.

Esse é o depoimento de uma profissional bipolar vivendo uma fase eufórica sem ter percebido e, consequentemente, medicada incorretamente e sem os remédios necessários para controlar essa fase de mania e descontrole.

Enfim, foram alguns dias dando aula nesse estilo.

Nessas últimas semanas, meses depois, fui chamada novamente para substituir uma professora que teve um problema. Na mesma escola, nas mesmas turmas que tiveram aula comigo no início do ano.

Só que eu estou na fase depressiva. O meu psiquiatra interrompeu aquela fase eufórica com medicações fortes e, como sempre, eu tive a fase “culpa/vergonha/medo/vontade de se matar” depois.

Então eu estou com um desânimo diário, uma tristeza sem causa, dificuldade de me concentrar, de lembrar ou de tomar decisões, problemas com a alimentação e com o peso, compulsão, fadiga e falta de energia, um sentimento de inutilidade, desesperança, culpa, uma intensa perda de interesse nas atividades que antes eram prazerosas para mim, a autoestima lá depois do fundo do poço, ainda mais por causa da grave crise de psoríase que eu estou tendo e que encheu meu corpo de lesões, marcas e manchas, estou com pensamentos constantes sobre morte e suicídio, problemas para dormir ou excesso de sono, e me afastei completamente dos amigos e das atividades que antes eram prazerosas.

Mas novamente esclareço que nem todos os sintomas estão relacionados com o meu lado profissional.

Fui trabalhar com um look “a melhor roupa que eu tenho para cobrir todas as partes do meu corpo e marcas da psoríase”, ou seja a única calça jeans que eu tenho, um casaco ou uma blusa de manga 3/4 preta, sapatilha preta, cabelo preso. Eu fui no estilo “professorinha pudica da cidade do interior”.

Entrei nas mesmíssimas turmas em silêncio. Pedi para os alunos abrirem os livros. Vários alunos falaram que não tinham levado os livros ou não tinham adquirido. Mandei todos para a coordenadora e perguntei qual o procedimento e eles levaram comunicado para casa. Passei as tarefas que deveriam ser feitas. Gritei quando eles estavam falando alto e atrapalhando a aula. Botei vários pra fora de sala por mexer no celular, fazer tarefas de outra matéria na minha aula, não fazer as tarefas que eu tinha passado, falar uma frase com 6 palavrões em voz alta para uma menina, entre outras coisas.

Corrigi as tarefas. Nas turmas que colaboraram corrigi explicando tudinho, mas quieta, séria, sem  brincadeiras, sem muita interação. Mas na minha mesmo. Nas que não colaboraram eu corrigi em voz baixa e quem prestou atenção, ótimo, e quem não prestou  que se vire depois (sei que isso é comum entre a maioria dos professores, mas não faz o meu estilo, eu costumo sempre ter paciência com eles e tentar fazê-los participar).

Quero deixar claro que embora esse seja o depoimento de uma profissional bipolar é uma característica minha trabalhar com qualidade e excelência. Sou perfeccionista. Gosto de ser elogiada. Então, mesmo com os problemas da fase eufórica, ou da fase depressiva, dei as minhas aulas com bastante cuidado, com profissionalismo, tirando todas as dúvidas, ensinando vocabulário, ouvindo com paciência e respondendo às dúvidas.

O profissionalismo não mudou de forma alguma. O que mudou foi o meu humor e a interação com os alunos.

99% dos alunos ainda me amam, ainda adoram a minha aula, ainda querem que eu volte, ainda brincam e conversam comigo numa boa. Aquele 1% que não está nesse grupo é formado por aqueles alunos que realmente não tem jeito, alunos que dão problemas para todos os professores.

Todos eles são enfáticos em dizer que adoram a minha aula e que aprendem mais comigo do que com qualquer outro. Ponto. Fato.

O que eu desejo com esse depoimento de uma profissional bipolar é chamar a atenção para as mudanças que ocorrem nas diferentes fases do transtorno e das mudanças nas medicações.

Como eu percebi isso depois das aulas de hoje, em que eu inclusive notei que estava irritada além do limite e cancelei vários comunicados depois de conversar com os alunos, resolvi analisar o que acontecia e como eu podia corrigir isso, equilibrar, proteger o meu lado profissional dos sintomas do transtorno bipolar.

Conheço outras pessoas com transtorno bipolar que tem problemas beeeeem maiores do que os meus. Pessoas que faltam sem dar explicação, que dão aulas alcoolizadas, que acabam tendo relações afetivas e sexuais com colegas e alunos, que dão aulas drogadas, que interagem com os alunos em momentos de uso de álcool e drogas, que esquecem que são professores e responsáveis por eles e tratam eles como “amigos de farra”. Profissionais que ultrapassam os limites da ética, do aceitável.

Espero que com esse depoimento de uma profissional bipolar outros pacientes possam fazer essa auto-análise, seja em que profissão eles atuem, e consigam contornar essas fases, esses sintomas. Espero que outros pacientes não deixem que o transtorno bipolar destrua sua reputação ou influenciem negativamente os seus trabalhos.

Eu já fiz a minha auto-análise. Me arrisco a dizer que fui muito corajosa em escrever e expôr sobre isso. Posso garantir que o comportamento que eu tive sem essa análise não vai se repetir. Claro que ainda vou me estressar, me aborrecer com os alunos, viver situações que todos os professores vivem, mas vou conseguir lidar com eles de uma maneira diferente, inclusive, se necessário, tomando uma medicação SOS indicada para controlar isso.

Espero que o post tenha sido interessante para vocês, pois foi mais sério dos que eu costumo postar, e mais longo, mas é pra isso que criei o blog.