Durante a minha viagem pela Europa em 1998 eu fiz muitas loucuras e passei por muitos países. O que ninguém imagina é que eu quase fui presa na Alemanha.

A viagem foi planejada para ser sem destino e ser de mochilão. Tudo o que tínhamos era um passe de primeira classe para andar nos melhores trens da Europa para onde quiséssemos, no horário que quiséssemos.

Naquele momento estávamos na Suíça, vivendo um dos melhores momentos da viagem, pois minha amiga tinha começado um romance por lá com um português residente em Genebra e eu estava tendo um “casinho” com o amigo que dividia o apartamento com ele.

Íamos à festas, bares, passeávamos pela cidade e pelas cidades próximas, conhecíamos lugares super “undergrounds”, experimentávamos bebidas muito loucas, fumávamos haxixe, maconha, dançávamos muuuito.

Conhecemos lojas de chocolate suíço, de relógio suíço, passávamos algumas tardes fazendo picnic e pegando sol no Bains des Paquis e jantando em lugares fantásticos como o restaurante de fondue ao ar livre debaixo das estrelas e do luar.

Nós estávamos vivendo momentos de paixão. Cozinhando comidas brasileiras para eles no apartamento deles, vivendo como dois casais felizes.

Mas o tempo estava passando, e por trás daquela loucura toda, daquelas raves, daquelas festas, do clichê “sexo, drogas e rock n roll”, estávamos perdendo a oportunidade de conhecer lugares na Europa e eu estava me sentindo presa.

Com muita dificuldade, pois minha amiga estava muito apaixonada, decidimos seguir e começamos a planejar a continuação da viagem.

Com tudo arranjado, nos despedimos dos amigos que fizemos, aproveitamos as últimas festas, os últimos momentos e fomos levadas até a Ferroviária pelo namorado da minha amiga e pelo meu “casinho”.

Na despedida, todo mundo muito emocionado (desculpa estragar a emoção da galera, mas eu não estava nem aí, só queria continuar viajando), o meu “casinho” com lágrimas nos olhos esticou a mão e disse que tinha um presente para mim, que era para eu me lembrar dele.

Eu estava muito doidona, pois estávamos virados da festa de despedida e tinha bebido pra caramba, então agradeci e só lembrava que ele tinha colocado algo parecido com um embrulho, num papel feio dentro do bolso que tinha na frente do meu macacão.

Beleza!

Entramos no trem e partimos para mais um destino, para mais um país. Entramos na nossa cabine de primeira classe, nos acomodamos e relaxamos. Eu não estava mais presa, estava livre de novo.

O trem parou. Nem nos mexemos, pois isso era comum, afinal o trem parava em várias cidades no caminho. Continuamos o que estávamos fazendo e esperamos ele continuar a viagem.

De repente, a porta da nossa cabine abriu e entraram o que pareciam dois oficiais. Não dava para saber que tipo de oficiais eles eram. Pensei que eles queriam verificar nossas passagens e se eram de primeira classe mesmo.

Eles falavam uma língua estranha e falavam sem parar. Pegamos nossas passagens e passaportes e mostramos para eles. Mas eles não pareceram satisfeitos, então comecei a falar com eles em inglês. Minha amiga não falava inglês.

Eles pediram para abrirmos nossas mochilas. Abrimos. Eles pediram para tirarmos tudo o que tinha dentro das mochilas. Tiramos. Eles pediram para tirarmos tudo o que tinha dentro das necessaires e de quaisquer bolsos que houvessem. Tiramos.

Eu comecei a ficar puta. Calma, mais puta. Não estava entendendo porra nenhuma. Minha amiga estava super nervosa e gritava sem parar. Dizia que ia ser presa. Eu mandava ela calar a boca e dizia que se ela ficasse gritando ia parecer que nós tínhamos feito algo errado e que tínhamos algo a temer.

Eles pediram para mostrarmos nossa roupa e esvaziarmos nossos bolsos. Fizemos o que mandaram. Até que eu lembrei que o tal “casinho” suíço tinha colocado alguma coisa no bolso da frente do meu macacão e eu não sabia o que era. Congelei.

Eu estava de macacão e trancinhas. Parecia uma criança inocente. E sorria o tempo todo enquanto falava com eles. Mas a minha amiga não parava de gritar e parecia uma histérica, e isso estava chamando a atenção deles.

Quando eu pensei que estava tudo bem, eles olharam para o macacão. Puta que pariu, fodeu!

Um dos oficiais reparou no tal do bolso. A porra do bolso com o presente que eu nem sabia o que era. E pediu para eu esvaziar ele. Eu disse que não tinha nada nele. Ele disse que queria ver.

Eu olhei bem nos olhos do oficial, enfiei a minha mão no bolso e quando tirei, dentro da minha mão tinha uma porra de uma pedra de haxixe de tamanho considerável (Fodeu!Vou ser presa na Alemanha).

Eu continuei olhando bem nos olhos dele, sorrindo, e disse: viu, eu não disse que não tinha nada?

Nesse momento o tempo parou. Nós dois ficamos nos olhando sem respirar. Nada acontecia ao nosso redor a não ser a minha amiga histérica, gritando feito uma louca que íamos ser presas na Alemanha, que iam nos levar pra cadeia, que iam pegar nossos passaportes.

Num lapso de segundo eu virei para a minha amiga e gritei: Cala a porra da sua boca! Caralho!

Voltei a olhar para o oficial nos olhos, sorrindo. Coloquei a mão, e o haxixe, de volta no bolso. E não me mexi. Fiquei ali parada, olhando para ele e esperando a minha sentença. Sem respirar.

Ele ficou um tempo me olhando. Não sei o que ele estava pensando. Ele não saía e nem fechava a porta. Só me olhava.

Depois de vários minutos ele finalmente fechou a porta e saiu.

Eu ainda fiquei algum tempo parada, em pé. Achando que ele ia voltar com outros oficiais e eu seria presa na Alemanha e teria e o meu passaporte confiscado. Não conseguia me mexer. A minha amiga gritando como uma louca. Mas eu nem ouvia direito.

Só consegui me mexer e relaxar quando o trem voltou a andar.

Então, desabei no banco e comecei a rir, mas eu ri foi muito. Não acreditava no que tinha acabado de acontecer e não conseguia explicar porque eu não tinha sido presa, ou perdido meu passaporte. Deus tinha sido muito legal comigo.

O haxixe andou comigo por muitos lugares ainda e ele não foi a única droga que passeou comigo pela Alemanha e pelo resto da Europa.

Mas aí são outras histórias, fica para outros posts…

Foda. Muito Foda. O dia em que eu quase fui presa na Alemanha. Mas existem milagres! Sim, existem.