De vez em quando eu cismo com alguma coisa. Mas cismo mesmo, de tal maneira que não sossego até desvendar ou resolver a cisma. E foi isso o que aconteceu hoje.

Minha formação é jornalismo e uma das minhas principais características, não sei definir se defeito ou qualidade, é conseguir descobrir absolutamente qualquer coisa que eu queira, ainda mais se eu cismar com a coisa.

Cresci ouvindo que o meu avô Demétrio, pai do meu pai, havia cometido suicídio.

E não havia sido qualquer suicídio, pois descobri isso durante uma visita ao Corcovado com meus amigos do grupo escoteiro. Minha mãe contou enquanto estávamos lá em cima olhando a bela paisagem do Rio de Janeiro, que meu avô havia pulado do Corcovado logo depois que meu pai havia nascido.

Minha avó falava pouco dele e tinha poucas fotos. Um dia resolvi perguntar a ela e soube que meu avô era boêmio, que ela ia atrás dele no bar com o rolo de macarrão, e coisas do gênero.

Devo dizer que na época me identifiquei muito com o meu avô (rs). Ele era do tipo poeta, intenso, passional e ela disse que eles brigavam muito pois ele era o que todos consideravam um irresponsável.

Ele era muto ligado à mãe, minha bisavó Alzira, e era um homem sedutor.
Sempre tive curiosidade a respeito de tudo isso, mas hoje decidi ir atrás dessa história e como não poderia deixar de ser achei tudo o que procurava.

Não sei porque agora, não sei porque hoje, não sei porque cismei com isso de uma hora para outra.

Descobri que ele realmente saltou do Corcovado e que foi algo muito forte na época. Saiu na primeira página dos principais jornais da época.

Ele deixou uma carta de suicídio pedindo desculpas à minha bisavó e à minha avó, com referências carinhosas e tristes em relação ao meu pai, bebê na época.

Ele era diagnosticado como neurastênico e após pesquisar muito em cima do que ouvia minha avó contar e do que conheço pela minha própria experiência, imagino que esse costumava ser o termo usado na época para o que hoje seria chamado de Transtorno Bipolar, por exemplo.

Ou seja, ele era como eu.

Papai também era um pouco intenso, mas de uma maneira diferente,e acredito que ele tenha percebido o perigo que corria e desde cedo procurou o equilíbrio de todas as formas que encontrou.

Papai foi maçom, rosacruz, yogue e, apesar de católico, se envolvia com várias outras religiões e doutrinas. Acho que ele tinha medo de ficar como o pai e de terminar como ele.

Apesar de ser cheio de vida, muito alegre, um homem tão bom de coração que ainda não conheci igual, papai também tinha aquele olhar triste que aparecia de vez em quando. E aqueles momentos de silêncio em que era possível perceber toda a melancolia que estava trancada dentro dele.

Vovô Demétrio não é mais um mistério para mim. Sinto com se o conhecesse intimamente. Ele só não teve perto dele as pessoas certas, as condições certas, para aguentar esse monstro dantesco que existe dentro de pessoas como nós e com o qual lutamos todos os segundos da nossa vida.

Esse monstro sombrio, gélido, duro e cruel, que pretende arrancar nossa vida de nós antes mesmo de morrermos. Esse monstro que se acalma com lítio, com valium, com rispiridona, com tarja preta, mas que também se acalma com amor, com atenção, com carinho, com oração e disciplina.

Entendo perfeitamente o que ele fez.

Naquela época ele provavelmente seria considerado um inválido ou seria jogado num daqueles hospícios horrorosos com práticas ainda primitivas. Sei lá.

Espero que ele tenha encontrado a paz que eu ainda procuro. Alguns podem não ter entendido, mas essa foi a forma que ele encontrou para matar o monstro dentro dele, e ele certamente conseguiu.