Eu tive o prazer de ver novamente o filme “Estamira”, apesar de ter lembranças diferentes sobre ele e adorei.

A última vez que eu assisti foi na aula de “psicologia e imagem” na PUC com a profª Madalena e a análise feita pelos meus olhos foi muito diferente.

É obvio que eu sou bastante diferente dela em termos patológicos, mas achei importante a parte do filme em que a filha dela diz que percebeu que ela mudou logo depois que o pai dela abandonou a mãe ou coisa do gênero

De acordo com a filha dela ouve uma série de abusos e traumas que fizeram com que a Estamira deixasse de acreditar em Deus, sim, porque a primeira coisa que a filha dela disse foi que a mãe parou de acreditar em Deus, e em seguida que a Estamira passou a viver num universo criado por ela própria e que ninguém entendia.

Também acho importante lembrar que a mãe da Estamira sofreu de problemas psiquiátricos e viveu internada num hospital especializado o que sugere um conteúdo genético embora a mãe, teoricamente, também tenha desenvolvido a patologia psiquiátrica por causa de abusos e traumas, de acordo com a análise da filha da Estamira.

Essa parte do filme foi muito difícil para mim pois foi exatamente para onde eu fui levada quando tive um dos meus piores surtos e a imagem do Hospital Pedro II é assustadora por causa do seu péssimo estado e dos pacientes soltos, expostos e mostrando um mundo terrível para quem vê de fora.

Os filhos da Estamira não tinham apresentado nenhum problema até a execução do filme (não procurei saber se desenvolveram depois), e temos três tipos sociais completamente diferentes: o filho que é extremamente religioso (adventista) e conservador, a filha que é extremamente liberal e aparenta ser do tipo que curte a vida (fuma, bebe, etc), e a filha mais jovem que foi criada num ambiente bem diferente dos irmãos por ter sido dada para adoção e que tem um perfil mais contido, educado, polido.

Será que a dor, a dor insuportável e indescritível e inominável é capaz de ser tão forte que consiga afetar uma pessoa alterando a sua estabilidade psiquiátrica e psicológica, e mais profundamente na sua estrutura metabólica e funcional? Será que existe um limite no nosso cérebro para suportar abusos, traumas e a dor?

Existem casos e casos, doenças e doenças, sintomas e sintomas. É impossível colocar tudo “no mesmo saco”, mas que gera uma boa reflexão gera.

E o que mais me impressiona toda vez que eu vejo esse filme é a mudança que ocorre com ela nos períodos agudos da doença, e nos períodos ‘com’e ‘sem’ tratamento.

Quando Estamira começa a tomar os remédios psiquiátricos com disciplina ela se desintegra e passa a ficar confusa, a não se reconhecer. A vida perde um pouco do sentido para ela que viveu tanto tempo no mundo que ela própria criou e onde ela ditava as regras, o cenário, a criação, tudo.

Sem o tratamento Estamira era “essencial para o mundo e para as pessoas”, era uma profeta, era sacerdotisa, era guardiã da verdade e dos segredos, era especial.

Com o tratamento ela não podia se aceitar e se legitimar pois deixava de ser essa pessoa que ela tinha criado para suportar a sua própria dor e passava a ser a velha Estamira, a mulher traída, sofrida, estuprada, abandonada, medíocre, comum, apenas mais uma entre tantas.

Por isso, talvez tenha sido tão difícil ela aceitar o tratamento psiquiátrico durante tanto tempo.

A doença dava a Estamira o poder da escolha de ser quem ela quisesse, de acreditar no que ela desejasse e de viver de acordo com as regras que ela mesma criasse. A doença permitia a ela viver apesar de tudo. A doença era a resposta dela ao que tinha acontecido na sua vida.

Não é incrível o que o cérebro faz? No mundo de Estamira ela era superior a tudo o que havia acontecido e era maior que qualquer mal e tristeza. Ela era tão especial que não podia ser afetada por essas “coisinhas” que afetavam os pobres seres humanos medíocres diferentes dela que era “do espaço”.

No episódio dessa semana em “Mental” na FOX (não tenho certeza) um grande escritor vivia numa catatonia esquizofrênica há anos. No final descobrem que essa “patologia” tinha sido uma escolha dele, do cérebro dele para suportar coisas que tinham acontecido na sua vida, muita culpa e intensa dor.

Ele também tinha criado um mundo dele só que dentro da cabeça dele, ao contrário de Estamira que fez o seu universo integrado ao universo total.

Então ele era um “vegetal”, mas dentro dele havia vida e havia todo o tipo de experiências, mas para quem olhasse de fora era apenas um homem velho numa cadeira de rodas, imóvel, mudo, inerte e sem interação nenhuma com qualquer coisa fora dele mesmo.

Penso em mim. É impossível não pensar. Sou diagnosticada como bipolar ou psicótica maníaca depressiva. Desde quando? Não sei. Minha mãe (neurologista) sabia ? Não sei.

Começou por causa do traumatismo cranio-encefálico que eu tive aos 13 anos? Não sei. É genético? provavelmente, dizem que sim, e existem episódios de depressão, psicose, e coisas do gênero no lado paterno da família. Foi encadeado por causa do traumatismo craniano? Não sei.

Mas sei que grande parte dos problemas, sintomas e episódios agudos que eu tenho na minha vida tem relação com a dor e a dificuldade de lidar com ela. Será uma maneira do meu cérebro me proteger para evitar um colapso pior? Quem sabe?
O preconceito e a ignorância das pessoas que convivem conosco são o pior… o resto tentamos contornar e lidar dia após dia. Só sabe o que é um transtorno psiquiátrico quem tem.

Mas o que você acha sobre essa questão do transtorno mental?