“A garota dinamarquesa” é um filme belíssimo, com figurino de época impecável, fotografia magnífica e uma bela história, embora não chegue aos pés da história verdadeira.

Ao procurar mais informações sobre o filme, já que é baseado numa história real, me surpreendi com a quantidade de informações que achei e que, infelizmente, me decepcionaram bastante no que se refere ao filme.

No filme temos a impressão de que Lili não consegue êxito para mudar de sexo, pois parece que ela morre justamente logo após a cirurgia. Na realidade, a verdadeira Lili conseguiu e foi uma das primeiras a fazer.

A relação de Lili/Einar com Gerda no filme parece ter durado poucos anos desde o casamento até a opção de Einar de mudar de sexo, mas na vida real essa relação durou 30 anos. Uma relação de grande amizade e apoio durante todas as decisões e transições pelas quais Einar passou enquanto se transformava definitivamente em Lili.

A vida de Einar não foi tão simples e bem resolvida como aparece no filme. As dúvidas, angústias, seus desesperos e tentativas de suicídio por causa do conflito de identidade que ele viveu sem saber se definir como homem ou mulher duraram anos, praticamente sua vida inteira.

O filme peca muito no esclarecimento de várias questões da história real. E poderia ter aproveitado a oportunidade para se aprofundar muito mais e trazer à tona assuntos que tem sido tão importantes na atualidade. Assuntos que são essenciais e precisam ser discutidos.

Entretanto,  o filme acerta ao explicar o que é a transgeneridade e seu potencial de fazer a sociedade progredir em um sentido de igualdade quando essas pessoas têm seus direitos assegurados. A figura do médico e sua concordância de que Einar é uma mulher num corpo de homem,18 e de que isso não era uma doença é essencial.

Achei o personagem vivido por Redmayne um tanto exagerado, principalmente porque ele muda de uma hora para outra. Não existe nenhum resquício feminino antes, e no Einar real isso já era percebido desde cedo. Ele poderia ter feito uma transição mais progressiva, crescente em seus trejeitos.

Redmayne parece um tanto plastificado, petrificado em suas técnicas, imobilizado em padrões pré-estabelecidos.

E achei que o personagem dele foi engolido pelo da coadjuvante Alicia Vikander, que faz uma Gerda espetacular, transgressora como a verdadeira Gerda foi e brilhando em cada cena, chamando tanta atenção que esquecemos do protagonista.

Por fim, achei o final patético. Na vida real Lili teve um relacionamento com o comerciante de arte Claude Lejeune, e meses após a quarta e última cirurgia em dois anos, que envolvia o transplante de um útero, pois ela e seu parceiro queriam ter filhos e se casar, a corajosa Lili morreu.

E Gerda, foi uma artista transgressora, que fazia pinturas e ilustrações eróticas com mulheres nuas masturbando umas às outras. Após a morte de Lili, seu estilo de arte tornou-se obsoleto, o segundo casamento acabou e ela se tornou alcoólatra. Morreu sem ter sua arte devidamente reconhecida.

Independente das diferenças entre o filme e a história real, vale a pena ver o filme. Ele é belíssimo e emociona mostrando a história corajosa de uma das primeiras pessoas transgênero do mundo.