Preciso voltar a falar de um assunto que me incomoda muito mas que precisa ser debatido e trabalhado constantemente – o suicídio. Isso voltou a me incomodar depois que assisti o documentário “Not Alone” no Netflix.

“Not Alone” é um documentário que foi produzido por uma garota depois que a melhor amiga dela cometeu suicídio e logo em seguida várias outras pessoas da comunidade em que ela vive.

A questão do suicídio para quem fica é a culpa, a sensação de que poderia ter feito alguma coisa, a incompreensão do porquê. A questão do suicídio para quem apela a isso em geral tem a ver com a dor, com o sentimento de inadequação, com o desespero.

A maioria das pessoas que comete suicídio ou tenta se matar pratica automutilação e se autoflagela durante muito tempo antes disso acontecer. Ou seja, existem sinais SIM.

Por ser suicida eu conheço intimamente tudo isso, eu consigo falar disso da maneira que eu falo. Estou viva por causa de um milagre e porque meu irmão chegou no meu apartamento a tempo de me levar para o hospital, onde fiquei na UTI e depois fui transferida para um quarto onde fiquei por vários dias.

“Not Alone” me trouxe todas essas memórias de volta e as memórias dos meus tempos de escola e faculdade. Sempre estudei em colégio particular, minha família tinha muito dinheiro e nunca nos faltou nada. Minha mãe era médica.

Mesmo depois que meus pais morreram, um quando eu tinha 13 anos e outro quando eu tinha 20, ainda assim não nos faltou nada, pois minha avó continuou cuidando de nós com as mesmas condições de sempre.

Em “Not Alone” vemos adolescentes falando das suas dores e angústias de forma profunda. Os suicidas não são necessariamente pessoas tristes, deprimidas, antissociais, fracassadas, necessitadas, feias… Qualquer um pode ser um suicida, até mesmo a modelo mais linda e rica da agência.

Esse vazio, essa angústia, essa dor que existe dentro deles, dentro de nós, não escolhe por critérios. Ela simplesmente acontece, como uma urticária que não conseguimos curar e aliviar. Ontem, pensando nisso eu imaginei que os suicidas são pessoas presas na montanha russa da vida, querendo sair, mas a montanha russa não para e eles simplesmente saltam dela. Assim é um suicida. Alguém que cansou do jogo da vida e decide abandonar o jogo antes do final.

Eu, particularmente, tenho muita dificuldade de lidar com tudo isso. Viver para mim é extremamente claustrofóbico. Eu sinto como se estivesse presa, sem conseguir respirar, desesperada com a falta de espaço imaginário ao meu redor. Eu sinto como se eu estivesse sendo abraçada pelos braços do Criador e Ele não me deixasse sair.

A vida ainda não é algo fácil de aceitar. Tento focar em coisas que desviem a minha atenção desse desespero, dessa dor, dessa claustrofobia. Tento focar na minha filha, no meu marido, nos meus irmãos. Tento imaginar o quanto eu estragaria a vida deles fazendo isso, principalmente da minha filha, e isso tem dado certo até aqui.

A verdade é que eu vivo com um medo gigantesco dentro de mim. Medo que descubram meus segredos gigantes, meus pecados das fases eufóricas, coisas que eu me arrependo tanto de ter feito que mal consigo respirar e viver. Às vezes é difícil suportar tanta culpa, tanto nojo e tanto ódio de mim mesma.

Preciso confessar uma coisa. A verdade é que todos os dias quando acordo eu penso em me matar. A verdade é que sei exatamente como faria isso. A verdade é que sinto que isso nunca vai passar. Mas tenho me esforçado para respirar, para viver, para existir. Por minha filha, por meu marido e por meus irmãos.