Eu recebi um vídeo num dos inúmeros grupos de whatsapp que existem no meu celular que me fez refletir sobre os amores contemporâneos. Era um vídeo erótico, pornô.

No vídeo aparece um casal. Um homem careca com cavanhaque cheio de tatuagens e bem musculoso. Uma mulher morena bem exuberante com peitões e cabelos longos. Eles começam a se beijar e a se tocar até que a mulher olha para o homem, puxa a calcinha de lado e aparece um pênis.

O homem olha para o pênis “dela”, dá um sorriso e abaixa as calças. Aí aparece uma vagina com um clitóris absurdamente gigante que pula pra fora dos grandes lábios.

Resumindo – a “mulher” era um homem transexual, ou seja, um homem que não se identificava como homem, portanto tomava hormônios para desenvolver características femininas e se vestia e vivia como se fosse uma mulher, mas que tinha pênis, pois não tinha feito a “transição”.

E o “homem” era na verdade uma mulher que se identificava como homem, portanto tomava hormônios para desenvolver características masculinas, como pelos no rosto e no corpo, se vestia como homem e tinha o clitóris bem avantajado por causa dos hormônios, mas que na verdade ainda era uma vagina pois também não tinha feito a “transição”.

Quero deixar claro que não sei como funciona essa questão da cirurgia de “transição” e também não sei como funciona a mudança dos órgãos sexuais e se é possível tanto para os homens quanto para as mulheres.

No vídeo, depois desse início, eles partem para as preliminares onde o “homem”, que na verdade é uma mulher, fica de joelhos e faz sexo oral no pênis da “mulher” que na verdade é um homem. Depois acontece o contrário com a “mulher” fazendo sexo oral no clitóris gigante do “homem”, que na verdade é uma mulher.

Ficou confuso? Eu também. Mas essa é uma amostra dos amores contemporâneos, na minha opinião.

Quero deixar claro que não sou preconceituosa e estou tentando explicar, da melhor forma que eu consigo, a maneira como entendi o vídeo e toda essa situação.

Esse vídeo me fez pensar nos amores contemporâneos. Na época em que eu era mais jovem essa questão se baseava em outras premissas. E eu fui bem “avançada” em relação a isso, mas agora não estou conseguindo acompanhar essas novidades, sinceramente.

Eu fui do tipo que ficava com rapazes bem mais jovens, tipo beeeeeem mais jovens mesmo, e homens bem mais velhos, tipo beeeem mais velhos mesmo. Já fiquei com homens que poderiam ser meus filhos e já fiquei com homens que poderiam ser meus pais, meus avôs. Simplesmente porque eu nunca dei importância para isso.

Amores contemporâneos para mim eram triângulos amorosos, relações com mulheres, com homens mais novos ou mais velhos, com homens casados, com bissexuais, com homossexuais, com desconhecidos, com estrangeiros, enfim, com situações que eram consideradas diferentes do “normal”.

Amores contemporâneos eram vividos em viagens para fora do Brasil em cabines de trens na Europa no intervalo entre uma cidade e outra. Eram vividos em salas cheias de casais excitados em casas de swing doidos para experimentar uma coisa nova sem que ninguém soubesse.

Amores contemporâneos era vividos entre estudantes de teatro que faziam festas cheias de álcool e drogas e se trancavam em banheiros escuros onde não existiam hetero, bi, nem homossexuais, só pessoas sedentas por emoção, excitação, ilusão, desilusão…

Não, eu não sou preconceituosa e nem conservadora em relação aos amores contemporâneos. Tento entender essas novidades e rótulos e tentativas de construir e desconstruir a identidade e o gênero sexual, o corpo humano como ele foi criado.

Sou hipersexualizada por natureza, sou bipolar. Nas fases eufóricas eu fico “impossível”, eu fico “indomável”, “insaciável”. Mas desde sempre, seja numa relação considerada normal, ou fora do normal, com bi, homo ou heterossexuais, eu sempre gostei do corpo humano como eu aprendi a conhecer desde criança – homens com pênis, mulheres com vaginas e peitos.

Então, não sei, talvez eu esteja ficando velha. Talvez eu não esteja preparada para esses novos rótulos e identidades, para esses novos amores contemporâneos. Ainda estou tentando entender e compreender o que isso significa para as pessoas que precisam passar por isso e para o mundo de uma forma geral.

E espero sinceramente que o mundo esteja preparado para tudo isso também, para esses novos amores contemporâneos e para os novos gêneros, corpos, identidades que passaram a existir. Sem preconceito, sem racismo, sem violência.

Viva os amores contemporâneos!!!