Hoje na reunião do AA só havia três pessoas contando comigo e ela dura duas horas. Depois de dividirmos a palavra e fazermos todos os procedimentos normais, acabamos falando sobre internação em hospital psiquiátrico e um companheiro falou que uma vez quase acabou atravessando espelhos.

Mas especificamente, ele disse que ele quase acabou atravessando o espelho, querendo dizer que ele tinha ficado tão louco por causa do álcool e do tratamento na clínica que quase não tinha conseguido voltar à realidade.

Desse comentário várias reflexões lindas surgiram a respeito de espelhos. Quando olhamos para o espelho somos obrigados a enxergar nossa beleza e nossa feiura, enxergar detalhes quase impossíveis de ser vistos.

Lembramos que existem outros espelhos metafóricos, como os olhos, que são os espelhos da alma. E que na verdade, os espelhos de nós mesmos, são as nossas palavras, que refletem o que há de mais verdadeiro e profundo dentro de nós e na nossa essência.

Saí da reunião com esses pensamentos na cabeça. Principalmente por estar correndo o risco de ser internada depois de descobrir que estou num surto eufórico já há algum tempo, mesmo não tendo percebido apesar dos sinais óbvios, mais do que óbvios, que estavam na minha frente – excesso de palavrões, sentimento de invencibilidade e superioridade, aceleração, abuso de álcool e afins, descontrole, ausência de sono, e tantas outras coisas comuns à fase da euforia.

E vivendo um momento de extrema depressão, pós euforia, por causa das consequências óbvias e comuns que ela causa, e das ruínas que vai deixando pelo caminho.

Pensei em tudo o que ouvi a respeito dos espelhos e refleti que no momento me sinto como um espelho quebrado em vários pedaços, fragmentado, desconectado, sem sentido, sem ligação entre o que o faz ser um espelho, entre o que lhe dá significado e sentido. Sou um espelho fragmentado.

Se eu atravessasse esse espelho nesse momento ficaria perdida, pois não seguiria um caminho seguro e lógico, com início, meio e fim. Entraria num mosaico de outra dimensão sem fronteiras, entradas ou saídas, como uma luz piscante de discoteca.

Nesse momento prefiro não olhar para nenhum espelho. Não quero me enxergar, não quero ver minha imagem refletida, não quero ver meus olhos ou minha alma. Não quero ver as ruínas do que restou desse último surto silencioso que me engoliu sem que eu percebesse.

Nesse momento quero me isolar. Quero silêncio. Quero reconstruir. Não o que não pode ser reconstruído, mas como dizem meus companheiros de AA, tenho que me reconstruir, pois eu preciso estar inteira, preciso que meu espelho não esteja fragmentado e em pedaços. Pois para nós, o espelho pode cair muitas vezes na nossa trajetória e só nós mesmos poderemos restaurar o que sobrar de nós e dele, todas as vezes.

Como disse a minha psiquiatra, igualmente, a minha doença é para a vida toda, mas ela é só minha. Ninguém tem que aguentar ela comigo. As pessoas cansam. Eu me canso. Mas eles podem cansar e desistir. Eu não. Ela faz parte de mim. Desistir significa renunciar à vida. Claro que penso o tempo todo nisso. Claro que já fui às vias de fato algumas vezes.

Mas ver a sua filha olhar para você nos seus olhos, pegar o dinheiro do cofre dela e colocar nas suas mãos e dizer: por favor mãe, vai pra casa de fulana por que ela vai cuidar de você e não vai deixar você sozinha, pois se você ficar aqui eu acho que você pode não aguentar, coloca tudo em perspectiva.

Eu não estou sozinha. O fato de eu não estar aguentando e querer desistir não me dá o direito de destruir o coração e a vida de outras pessoas. E espero que esse pensamento me dê forças para continuar tentando reconstruir o meu espelho, e quem sabe, daqui a algum tempo, não sei quanto, eu seja capaz de olhar para ele novamente.

Na vida não há só um espelho, há vários. Eles irão se quebrar muitas vezes. Por minha culpa, por culpa da vida, ou por culpa dos outros. O importante é que sempre haverá um novo espelho. E que eu tenho que ter cuidado para não atravessa-lo, e se o fizer, para conseguir voltar.

Espero que da próxima vez que eu olhe para meu espelho, e que as pessoas olhem para o espelho dos meus olhos e das minhas palavras, sejam capazes de ver refletida outra pessoa, outra alma, outra essência, paz de espírito, equilíbrio, cura, esperança, amor, respeito, estabilidade emocional, sobriedade há meses ou anos, amor próprio, e uma pessoa com menos demônios interiores.

Que todos tenham lindos espelhos a sua volta refletindo coisas maravilhosas!