Não sei porque mas ultimamente tenho tido muitos flashbacks sobre o meu passado e muitas reflexões sobre coisas da minha vida. Uma dessas coisas é a minha forma de me relacionar com as pessoas e a minha dificuldade de estabelecer laços profundos e verdadeiros. Então vamos falar sobre o amor.

Minha primeira referência de amor foram os meus pais. Eles eram meio que um casal 20. Lindos, bem sucedidos, o centro do grupo de amigos, três filhos. Boêmios, muitas festas, muitas viagens, muitos programas. Sempre juntos. Meu pai morreu quando eu tinha 13 anos. Minha mãe tinha 39.

Eu tenho mais tempo com o meu marido hoje do que eles tiveram juntos. E a lembrança que ficou na minha cabeça foi de uma vez que vi meu pai “ensaboando” os peitos de uma das minhas “tias”, amiga deles, no rio de guapimirim com todos rindo, numa época em que isso certamente era normal para eles adultos, mas que confundiu a minha cabeça de criança.

A minha última lembrança deles como casal foi deles brigados. Minha mãe ficou bêbada na festa em que estávamos e estava flertando e conversando com um cara, se negando a ir embora conosco. Meu pai ficou chateado. Ele ficou horas sentado, aguardando, observando, esperando, calmamente tentando convencê-la a ir embora.

Finalmente conseguimos ir. O carro pifou logo depois. Ele saiu para empurrar atrás do carro, ela pegou a direção. Um ônibus bateu atrás do nosso carro. Meu pai morreu. E foi isso. Ele morreu brigado com ela, chateado, magoado. Ela sem ter dito uma palavra, bêbada, depois de uma cena. Os dois em silêncio e sem se falar.

Então vamos falar sobre o amor.

Meu primeiro amor nasceu em fevereiro, eu em março. Crescemos juntos. Cresci com ele dizendo que só namoraria comigo se eu mostrasse os peitinhos pra ele atrás da moita. Depois com ele correndo atrás de mim e balançando o pinto como se fosse um terrorista.

Depois tivemos encontros e desencontros pela vida. Quis perder a virgindade com ele. Fui até sua casa, eu era tão nova. Deitei em sua cama, tirei minha roupa, me declarei. Ele disse que éramos como irmãos e que não podia fazer isso. Doeu na minha alma. Chorei muito. Perdi a minha virgindade muitos anos depois com outro.

Tivemos muitos encontros e desencontros. Sempre loucos e especiais. Muitos pedidos de casamento sem sentido. Uma vez ele me disse que não ficava comigo porque eu era muito doida e promíscua. Outra vez ele disse que deveríamos casar mas vivendo separados e nos encontrando casualmente. Quando fazíamos amor era como se o mundo parasse. Mas sempre foi um amor não vivido, um amor não permitido, rejeitado, não aceito, por ele. Então vamos falar sobre o amor.

Meu primeiro namorado foi aos 13 anos, antes do acidente que matou meu pai. Ele me pediu em namoro e me deu meu primeiro beijo. Depois terminava comigo dizendo que estava apaixonado por outra, normalmente mais bonita e popular do que eu no condomínio em que eu morava. Ao levar um “toco” da outra pedia pra voltar pra mim e eu aceitava. Isso aconteceu várias vezes. Eu era uma otária. Sofri o acidente e não aceitei mais voltar com ele.

No acidente tive um traumatismo craniano e tudo mudou. Acordei do coma diferente. Nunca mais fui a mesma.

Comecei a ficar com vários garotos sem me importar com nada, como se isso significasse que eu era popular, ou bonita, ou desejada. E às vezes namorava. Os namoros eram até que bem intensos.

Tudo era muito confuso na minha cabeça. Cheguei a ficar uma vez com o mesmo cara que a minha própria mãe tinha ficado. Eu não sabia que ela tinha ficado com ele. Ele era bem mais novo do que ela e bem mais velho do que eu. Era uma merda, uma confusão. Ela estava confusa, na merda por causa do meu pai, e eu também.

Vi homens mais velhos do que eu competirem com presentes caros tentando ver quem conseguiria tirar a minha virgindade, como se ela estivesse em leilão. Uma vez recebi uma coroa de flores com caixa de bombons. Minha mãe riu e perguntou quem tinha morrido. Eu comi os bombons e joguei as flores fora.

Então vamos falar sobre o amor.

O amor pra mim sempre foi sinônimo de rejeição, dor, espera, humilhação, traição, confusão, medo, decepção, solidão…

Os “tios” que eram os amigos dos meus pais se separaram e divorciaram por causa de traições, casos extraconjugais, e coisas muito piores. Eles eram meus heróis e se mostraram tão humanos e falhos. Vi amantes desfilarem ao lado de esposas como amigas, vi esposas verem suas vidas desmoronarem, vi sexo, drogas e rock n roll deixarem de ser simplesmente uma expressão.

O “felizes para sempre” passou a ser fantasia de filme de cinema. As famílias estavam sendo destruídas. Vi assassinato, brigas, amigos deixarem de ser amigos, o grupo se desfazer. O amor deixar de existir, o amor deixar de ser amor. Amor, que amor?

A minha tão esperada e postergada primeira vez foi com tesão, não foi com amor. Não teve romantismo, não teve ruptura de hímen, teve sexo e lubrificação. E aquele homem tão especial para quem eu dei aquele momento, e de quem sou amiga até hoje, me deixou esperando em vários encontros por ele. Me deu várias desculpas esfarrapadas, arrasou meu coração muitas vezes. Ele me deu o maior e o melhor amor, e o menor e o pior amor, que uma garota que está tendo a primeira vez pode receber.

Nunca mais amei até me apaixonar à primeira vista no escotismo por uma pessoa que talvez tenha sido o maior amor da minha vida. E talvez a única pessoa que não me machucou e nem me magoou. Mas, aí eu já estava tão cagada que não sabia amar, tinha medo, e inconscientemente, eu fazia a merda antes que a pessoa me machucasse. E eu o machuquei e magoei muito. Nunca vou me perdoar.

Então vamos falar sobre o amor.

Mais tarde amei um menino, um anjo. Consegui acreditar no amor novamente quando não tinha mais esperança. Encontrei a alegria e a felicidade que achei que tinha perdido. Quase 5 anos mais novo do que eu. Quis fugir, casar escondida, quis ter filho imediatamente. Minha mãe estava morrendo de câncer. Ele era meu melhor amigo, meu parceiro, era pro resto da vida.

Então, num dia em que fiquei cuidando da minha mãe em casa, que já estava respirando com oxigênio e dificuldade, ele foi a uma festa nos representando como casal. E me traiu com a minha melhor amiga. Voltou da festa e deitou na minha cama cheirando a bebida. E eu soube. Não sei dizer como, mas eu soube na hora. E fiz ele me dizer. E ele disse.

Ele me traiu com a minha melhor amiga enquanto eu estava cuidando da minha mãe que estava morrendo de câncer. Comeu ela no carro em que me levava pra passear. A dor que eu senti foi tão grande que eu fiquei com pneumonia e foi a primeira e única vez nos 8 anos em que minha mãe teve câncer que eu não pude ficar com ela no hospital.

Depois conheci minha última tentativa. Ele pediu minha mão em casamento à minha avó. Ela ficou tão feliz. Eu fiquei tão emocionada. Procuramos apt. juntos. Escolhemos morar bem perto da minha irmã. Começamos a ver as coisas. Mas não era bem como ele dizia. E não fui eu que fui morar naquele apt. E ele não era solteiro. Essa foi a história que mais me machucou. A que mais está demorando para curar.

Então vamos falar sobre o amor. Sobre a porra do amor. Eu não acredito nessa merda. Pra mim só existe um amor. O amor que eu tenho pela minha filha. Talvez nem ela me ame. Talvez ela só vá saber o que é o amor quando tiver um filho. Porque o amor é uma fábula.

Eu não quero amor. O amor me machucou, me deixou esperando, me disse mentiras, me estuprou, me ligava dizendo que já ia chegar e não vinha, me prometia coisas que não cumpria, tentou me comprar com presentes caros, me traiu com minha melhor amiga, me largava toda hora por meninas mais bonitas e populares, me disse que era solteiro mas era casado, gritou comigo e me chamou de burra, de lerda, de inútil…

O amor só dizia eu te amo na hora do sexo, tentava me embebedar pra me levar pro motel, me largou no corredor de uma festa cheia de estranhos e drogas, não teve coragem de lutar por mim sabendo que eu o amava e me deixou namorar o irmão, desapareceu quando eu mais precisava dele, nunca apareceu para perguntar…

O amor me roubou, me caluniou, deixou falarem coisas de mim que eram mentiras, o amor me prometeu que cuidaria de mim, o amor disse que me aceitava como eu era e que entendia mas não era bem assim, o amor cresceu dentro de mim mas não me deixa tocá-la, o amor me deixa sozinha, o amor não tem tempo pra mim, o amor me procura de vez em quando, o amor me esqueceu.

E a única vez que o amor me amou, me enganou para eu não amá-lo.