Não escrevo pensando em métricas, formatos ou padrões.

Escrevo sobre o que sinto e o que sinto não pode ser ensaiado, ou formatado.

Quero que me ouçam, que riam, que chorem que vibrem, que gozem. Quero que se percam e se sintam livres, nem que seja apenas por um segundo. Sem métricas, formatos ou padrões.

Vejo os zumbis, não vejo mais pessoas. As pessoas se foram. Elas sucumbiram à máquina social conectadas por cabos, redes e wi-fi. Elas sugam a eletricidade mas não tem energia.

Quem ainda sente o cheiro da chuva? Agora ela tem uma explicação científica, lógica, algo com bactérias no solo ou coisa parecida. Métricas, formatos e padrões. Foda-se a explicação. Quão mais poético e suave é pensar que o cheiro é o cheiro da chuva.

Quem ainda se deleita com o sol?

Qual o valor das vidas, é o dinheiro?

Li um exemplar da Marie Claire hoje no almoço. Reportagens sobre perfumes de quinhentos reais, batons de duzentos, esmaltes de cem. As roupas… Nem te conto!

Reportagens sobre valores. Quais valores?

Não importa o que digam eu nunca entenderei um perfume valer mais do que o trabalho de gente honesta, do que comida e remédios para quem precisa.

No ônibus em que escrevo sobre métricas, formatos e padrões, a chuva molha os assentos. Reparei que o homem que sentou ao meu lado cheira muito mal, tipo MUITO mal. Olho discretamente e consigo notar que ele aparenta não tomar banho há alguns dias, no mínimo.

Entretanto, quando ele passou por mim para sentar na janela, no assento molhado, ele pediu licença com muita delicadeza e educação.

Penso nos valores, nas métricas, formatos e padrões. Qual será a história desse homem educado, polido e fedido?