O ano é 2017, sim 2017, século 21, novo milênio, blá, blá, blá. Eu vivo numa redoma chamada rio de janeiro, num país chamado Brasil. Até pouco tempo atrás eu não tinha noção de onde eu vivia de verdade e de como era a realidade do universo.

O ano é 2017 e meu bairro teoricamente é pacífico e seguro, mas ouço tiros regularmente quando estou deitada no meu quarto assistindo tv e não posso circular em algumas áreas por causa dos bandidos e traficantes da CDD, da quintanilha (antes pacífica), da covanca, da Araticum, da Pau da fome, da Pica pau, vila sapê, fora as inúmeras outras que não conheço.

Decido participar de um seminário sobre refugiados, um termo que acho que nem deveria existir já que somos todos filhos do Dono e o planeta é “público”,  mas, pasmem, existem fronteiras, e leis, e grades, e separação por raças, classes, religião, crenças…

E existem refugiados, homens, mulheres, crianças, idosos, famílias, fugindo da guerra, da violência, da censura, de presidentes eleitos, reis, ditadores (como assim, em 2017, no século 21???)

Mulheres que fogem de casamentos forçados, mutilação genital, violência sexual causada por soldados, espancamento e chicoteamento em praça pública por desrespeitar o marido, escravidão sexual e risco de serem mortas queimadas vivas por se recusarem a ser escravas sexuais…

Mas como assim, não estamos mais na idade média, o ano é 2017.

Sim, o ano é 2017 e as pessoas morrem e morrem cedo e morrem de doenças ridículas e doenças terríveis. Doenças financiadas pela indústria farmacêutica, alimentícia. Sim, FINANCIADAS. As indústrias de remédios investem para que as pessoas fiquem doentes, e que não morram logo, sofram com isso e precisem de remédios.

A indústria alimentícia financia estudos que comprovem que o que produzem faz bem para o corpo, mesmo sabendo que é a causa de todo o mal. Financiam estudos que plantem dúvidas na cabeça das pessoas. Financiam mais remédios, da indústria farmacêutica, para curarem o que seus alimentos causam.

O ano é 2017 e as carnes que comemos vem de animais doentes, enjaulados, maltratados, tratados com remédios pra tratar de doenças horríveis e antibióticos para permitirem que eles vivam de forma terrível, amontoados, junto de outros animais doentes e mortos.

E suas carnes são maquiadas com hormônios, e injeções de complexos líquidos para aumentarem sua aparência e fazerem eles parecerem mais bonitos e saudáveis. E seus tumores e doenças também são maquiados, drenados, antes do processo de corte e embalagem, para que não apareçam para nós.

E, sim o ano é 2017 e as pessoas que elegemos para nos representarem nos roubam, mentem para nós, dão permissão para essas indústrias fazerem isso, criam leis que os favorecem, que nos impedem de questionar e de brigar com eles.

Esses nossos representantes roubam o dinheiro dos nossos impostos, o dinheiro com o qual contribuímos para a saúde, a segurança e a educação, para o nosso bem estar. Eles pegam esse dinheiro e roubam, e trocam propinas e subornos.

O ano é 2017 e nós, sim nós, poluímos a própria água que tomamos, a própria terra em que plantamos, nosso próprios alimentos, por causa de dinheiro. E vendemos isso para nós mesmos. E pior, nós mesmos compramos.

O ano é 2017 e existem guerras em todo o planeta. Irmãos lutando contra irmãos, pessoas lutando pelo direito de usar armas, as mesmas que as matam ou matam seus entes queridos. As pessoas se matam por causa das suas diferenças, mesmo as mais idiotas.

O ano é 2017 e ainda existe escravidão, mulheres sendo tratadas como inferiores aos homens, crianças sendo traficadas, vendidas, trocadas como produtos. Ainda existe homens, pais de família, padres, professores, tocando punheta enquanto assistem crianças e bebês, tocando essas crianças e bebês, violentando-os, estuprando-os, silenciosamente nas ruas, nas nossas escolas, nas nossas igrejas, nas nossas casas.

Esse texto não tem fim, ele continuaria eternamente, pois a cada minuto descubro mais coisas horríveis e nojentas que ainda acontecem, apesar do ano ser 2017 e de estarmos no novo milênio e blá blá blá.

Tenho nojo. Tenho ódio por estar viva assistindo isso. Não sei o que fazer. Só sei que não posso mais ficar inerte, nem calada, nem passiva.

Não apoio rótulos, apoio direitos, apoio a liberdade, apoio a segurança. O ano é 2017 e eu ainda não compreendo muito bem essa coisa de liberdade de gênero e não sei se concordo com tudo o que dizem e pregam. Também discuto com cuidado sobre aborto, drogas, fronteiras, armas…

Mas tem coisa que não tem explicação, não tem. Não sei mais o que são os direitos humanos. Direitos humanos que esquecem das vítimas e defendem os agressores. Que libertam bandidos e prendem vítimas. Que tapam os olhos e ouvidos para horrores.

Não existe verdade absoluta, falo isso o tempo todo. Me reservo o direito de ter dúvidas às vezes.

Estou com raiva, estou confusa, estou com medo. Acho que estava confortavelmente alheia à tudo há algum tempo e de repente caiu tudo de uma vez em cima de mim.

Sinceramente, acho que a “besta”, o “anticristo”, já está governando essa porra desse planeta e seus soldados estão fazendo um ótimo trabalho. Estamos sendo massacrados, destruídos, torturados, sem emitir um grito.

O ano é 2017 e é tempo de gritar, de mudar, de lutar e de não aceitar certas coisas.