Eu nunca entendi direito esse lance de “poucos serão os escolhidos…”.

Sempre achei tudo muito radical e circunstancial, mas agora entendo a profundidade dessas palavras. Na maior parte das vezes em que estive desviada do meu foco principal – vou chamar ele de “caminho da luz” – não era exatamente porque eu tivesse escolhido isso.

O transtorno bipolar é quase como um alterego, uma personalidade extra que fica latente dentro de nós torcendo para que algo aconteça, algum gatilho que nos faça surtar ou entrar em crise na doença, para que seja libertada.

Quando o tratamento funciona 100% é pouco provável que a pessoa faça algum tipo de merda, a não ser que faça parte da personalidade algum desvio de caráter mesmo.

Quando o tratamento com remédios funciona direito comigo eu normalmente não bebo como uma alcoólatra e nem manifesto os principais sintomas da doença, os que normalmente colocam a pessoa fora de controle, sem limites.

Quando ele só funciona em parte eu consigo controlar a maior parte das coisas mas ainda assim manifesto algum descontrole. Quando estou em crise ou surto… aí sou um trem descarrilado, um carro sem freios.

Mas voltando ao que me levou a escrever esse post…

Eu sempre achei que apesar de todo esse problema com a psicose eu estivesse indo bem no meu “caminho da luz”. Até me deparar com uma situação tão extrema, tão complicada que eu tive que lidar com a maior prova de todas – o perdão.

Foi então que percebi que realmente o “caminho da luz” não é para qualquer um e que poucos serão os escolhidos.
O perdão queima, arde, dói, desce cortando por dentro, paralisa. O perdão é como um punhal enterrado no coração que destroça mais um pedacinho cada vez que é lembrado. O perdão é um upgrade que custa mais caro do que podemos pagar.

Perdoar não é para qualquer um. Perdoar é para os que são realmente santificados na alma.
Não estou falando de qualquer perdão. Já perdoei erros imperdoáveis, já perdoei pessoas imperdoáveis, já perdoei bandidos, estupradores, violentadores, já perdoei feridas de amor, já perdoei desprezo, ignorância, o silêncio da inimizade.

Isso não foi difícil de perdoar. Eu perdoei de verdade, dentro do meu coração e nunca mais pensei nos danos que essas pessoas ou esses atos me causaram.

Existem coisas que entalam na garganta e não descem. E aquilo fica passando sem parar na nossa cabeça como um filme com defeito ou como um disco de vinil arranhado. E o dano causado é lembrado toda vez que ouvimos, vemos, lembramos, sentimos… Esse é o perdão que queima, arde, dói…

Esse é o perdão que precisamos dar a quem realmente amamos.

Perdoar aquele que me violentou foi fácil, pois não significava nada para mim e eu não esperava nada dele. Perdoar a agressão no meio da discussão foi fácil,pois eu sabia que tinha acontecido num momento de raiva e descontrole, e não significava nada para mim e eu não esperava nada daquela pessoa.

Mas perdoar a dor causada por aqueles que amamos e de quem esperamos amor, respeito, carinho… esse é o perdão difícil.

Hoje eu entendo o significado de “poucos serão os escolhidos…”.

E apesar de todos os desvios da minha vida pregressa eu teria ficado entre esses poucos se não fosse por esse perdão que eu não consigo dar, se não fosse por essa dor que eu não consigo esquecer, se não fosse por esse amor que eu não tenho como arrancar de dentro de mim porque faz parte de mim, do meu sangue.

Invejo aqueles que conseguem perdoar independente de qualquer coisa, abençoados são eles.