Ele perguntou sobre a primeira vez em que ela gozou. Lembrança perdida no baú da memória, confundida com tantas vezes em que usou e abusou de seu corpo e do corpo de tantas pessoas envolvidas com a sua luxúria e desejo. Gozo sozinha ou gozo com outras pessoas?

Ela lembrou das tantas vezes em que sentiu prazer e em que esperou pelo prazer sem saber como ele seria. Mistério aguardado com tanto anseio e desespero, desfrutado com tantos tabus e tantas amarras, soltas somente com o amadurecimento da própria existência.

O gozo que constrange quem lê, quem imagina, quem ouve, quem participa indiretamente através das lembranças.

O gozo do proibido, o gozo da traição, o gozo da primeira vez, o gozo do desconhecido, o gozo do segredo… Da primeira vez antes da primeira vez, da primeira vez dos dedos, dos lábios, da língua, dos brinquedos…

Ela se deu conta das tantas primeiras vezes que teve, dos tantos primeiros gozos, das tantas descobertas que fez sozinha, com outro, com outra, com outros e outras.

Ele se deleitava com suas lembranças e imaginava o que ela ainda não tinha feito, o gozo que ela ainda não tinha tido.

Imaginava como poderia mostrar algo que ainda não havia sido mostrado, nem tentado, nem testado. Imaginou orgias, swing, menages, consolos, vibradores, kama sutra, tantra…

Só queria provar, só queria mostrar que ainda existiam primeiras vezes a serem descobertas, só queria ser o primeiro de algo que ainda não tivesse sido vivido.

Ela desejou outra primeira vez, desejou que houvesse algo novo, desconhecido. Fechou os olhos e procurou algo que ainda não tivesse tentado, testado, feito, experimentado. Difícil!

Ela desejou 9 e meia semanas de amor, um último tango em Paris, e tantos outros cenários pintados por outros que desejaram.

Ele tentou imaginar, tentou se lembrar.

Ela se lembrou das primeiras vezes. Se lembrou do hall do apartamento, se lembrou do tapete fofo da sala, das flexões de braço na varanda, da “aflição” sem nome e sem explicação, da noite na praia, das muitas mãos e bocas e corpos de tantos quartos escuros.

Ambos souberam. Ambos perceberam que ainda há tantas primeiras vezes para serem vividas.