Tenho lido várias reportagens sobre a decisão do STF sobre a interrupção da gravidez até o terceiro mês da gestação. O debate sobre o aborto sempre foi e sempre será muito acalorado e muito complexo.

Envolve religião, envolve crenças, envolve ciência, envolve acreditar em alma, espírito, vida antes do nascimento e após a morte, envolve tabus, envolve o desconhecido. Envolve sentimentos, envolve sobrevivência, envolve passado, presente e futuro.

Não envolve só o feto ou o embrião que está dentro da gestante, envolve a gestante também. São muitas coisas para se pesar nessa discussão e nessa decisão. Nem sempre é sobre ser contra ou ser a favor, às vezes é sobre ter compaixão.

Já conheci muitas pessoas que cometem aborto como se estivessem tirando uma espinha do rosto. Não sentem nada. Fazem sexo sem proteção, engravidam, tomam citotec como se fosse uma aspirina, e pronto. Fazem tudo de novo como se não tivesse problema algum.

Conheci muitas pessoas assim, principalmente de baixa renda, de classes mais baixas. Fazem sexo sem proteção porque o namorado não gosta de fazer sexo sem camisinha. Não tomam pílula porque engorda. Coisas desse tipo. E a pílula do dia seguinte? Esqueceram, não funcionou, não tomaram direito provavelmente, coisas do tipo.

Mas também já conheci pessoas cultas que tinham esse mesmo comportamento. Conheci várias pessoas de classe alta que abortavam em clínicas clandestinas, mais de uma vez. Não compreendo! Isso eu não compreendo. Eu compreendo um acidente, um incidente, eu compreendo uma vez, por um motivo sério, por desespero, mas repetir várias e várias vezes, como se fosse a coisa mais normal do mundo eu não compreendo. Não aceito!

Não vou ser hipócrita. Quando eu era uma adolescente eu engravidei de um namorado que minha mãe que era médica descobriu ser um psicopata (literalmente). Ele me ameaçou de morte, ameaçou minha família, tentou se matar na minha frente, ficou de tocaia na portaria do meu prédio para me pegar, ficou de tocaia na rua em que eu fazia terapia e quando eu saí disse que se eu não ficasse com ele eu não ficaria com mais ninguém e correu atrás de mim com uma faca até que tropeçou e caiu e eu consegui fugir.

Ele ameaçou meus amigos, roubou coisas minhas, fingiu receber entidades para me colocar medo e me obrigar a ficar com ele (até um amigo da minha mãe que era conhecedor do candomblé me provar que era tudo mentira), enfim, ele fez da minha vida um inferno. E no meio desse medo todo que ele colocou em mim, dessas ameaças todas, ele me engravidou. E eu vivia meio que uma síndrome de estocolmo depois de tanto tempo passando por tudo isso.

Eu estava bem no começo da gravidez, mas minha mãe começou a desconfiar por causa dos sintomas. Ela me chamou para conversar e eu confessei que estava grávida. Ela conversou longamente comigo e eu acabei contando um pouco da minha relação com esse namorado. Ela ficou apavorada. Me impediu de vê-lo e mandou eu terminar a relação. Foi quando tudo virou um inferno. Ele ficou enlouquecido. Virou um monstro, um criminoso. Minha mãe foi obrigada a entrar em contato com a polícia e pedir ajuda. Espalhou fotos dele no nosso condomínio para ele ser impedido de entrar. Pediu ajuda a vários conhecidos que eram delegados, psiquiatras, enfim, pessoas que podiam nos ajudar a lidar com a situação. Fui impedida de atender telefone, sair de casa.

Ela me obrigou a abortar. Foi terrível. Me levou no obstetra que havia sido professor dela. Nunca vou me esquecer desse dia. Ele me examinou. Perguntou a ela se ela tinha certeza. Eles conversaram em particular. Ele era contra. Ele pediu um ultrassom. Tenho certeza de era para tentar dissuadir a minha mãe. Foi o momento mais difícil e doloroso da minha vida. A médica encostou o aparelho e apareceu o bebê na tela. Ela falava: olha que lindo o seu bebê, olha pra ele. Minha  mãe falava: ela não quer olhar, ela não vai olhar. A médica notou algo estranho e encostou um outro aparelho e eu ouvi as batidas do coração do bebê. Comecei a chorar compulsivamente. A médica falava que o bebê estava feliz porque eu estava ali e falava várias coisas. Minha mãe mandou ela parar. Pegamos o exame e saímos.

No dia do aborto eu me vesti de macacão e trancinhas. Eu estava arrasada. Estava sofrendo muito. Minha mãe mal falava comigo. Chegamos numa clínica em botafogo onde eu já tinha levado uma outra amiga que tinha pedido companhia para abortar (que ironia). Eu chorava. Preenchemos ficha. Fomos chamadas numa sala.

Uma senhora sentada numa mesa perguntou porque eu estava ali e eu respondi que era para tirar um bebê. Ela perguntou porque eu estava chorando e vestida que nem uma criancinha. Eu fiquei em silêncio, não soube o que responder. De repente a mulher começou a gritar comigo. Disse que quando eu tinha dado eu não tinha chorado e nem me vestido que nem criancinha. E gritava: quando você fazia sexo era bom né? É gostoso dar, né? Você sabia o que estava fazendo! Ela gritava tanto comigo. Eu comecei a chorar. Depois, virou para a minha mãe e disse que não faria o aborto em mim a não ser que o pai da criança comparecesse e assinasse concordando com o procedimento.

Saímos e fomos para o carro. Minha mãe não dizia uma palavra. De repente ela começou a gritar comigo. Como você pôde fazer isso comigo? Já não basta o momento difícil que eu estou passando? Como você teve coragem de fazer isso? Não vê o quanto eu estou sofrendo? Gente, eu sempre respeitei a minha mãe, mas quando ela gritou isso eu “virei no jiraya”, me deu um negócio e eu comecei a berrar com ela. Você está maluca? Fazer isso contigo? Sou EU que estou indo abortar? Sou EU que estou tendo que tirar meu bebê! E desatei a gritar um monte de coisas para ela, a xingar, chorar compulsivamente e foi horrível. Ficamos sem nos falar e voltamos para casa em silêncio.

Entrei em contato com o namorado psicopata. Ele se recusou a assinar. Minha mãe falou com ele, acho que o ameaçou ou coisa parecida, pois ele mudou de ideia e aceitou ir lá. Marcamos o dia. Chegamos lá, ele chegou depois. Fomos chamados para a sala da tal mulher que gritou comigo e ela perguntou para ele se ele concordava. Ele ficou em silêncio por uns minutos depois disse que concordava. Ela, obviamente, não acreditou, mas teve que aceitar. Descemos para a recepção, assinamos os papéis, ele fez um “cu doce” pra assinar, mas minha mãe pressionou ele e ficou tudo certo.

Agora entramos na parte que eu chamo “o pior dia da minha vida – o terror”. Eles ficaram na sala de espera, nem minha mãe foi comigo. Eu entrei numa sala minúscula, com uma cama de hospital pequena, já tinha tirado as minhas roupas e colocado um roupão. Deitei, algumas pessoas paramentas a minha volta se movimentando, um médico do meu lado, eu assustadíssima. Olho para o médico e peço pelo amor de Deus para ele me apagar, para eu não ver nada. Ele fala para eu ficar tranquila e na mesma hora sinto que estou perdendo os sentidos.

Acordo numa maca num corredor. Uma moça fala para eu levantar com cuidado. Eu mal consigo andar e me comunicar. Ando até minha mãe. Ela dá umas recomendações. Eu estou bem desorientada ainda. Não consigo entender porque eles nem dão tempo de nos recuperarmos. Entro no carro com minha mãe. Ela me leva até em casa, me deita na cama dela, me explica as recomendações (não me lembro direito delas). Dentro da minha vagina tem um rolo de atadura. Ainda estou bem desorientada. E a minha mãe vai embora, não sei pra onde.

Minhas lembranças desse momento. Muita mágoa da minha mãe, principalmente por não ter ficado comigo depois do procedimento quando cheguei em casa. A rapidez com que tudo aconteceu. O horror que é tirar o rolo de atadura de dentro de si depois do tempo determinado e a quantidade de sangue. O vazio que fica lá dentro onde antes tinha uma vida que era sentida o tempo todo. A dor de ter passado por isso e de não poder dividir isso com ninguém. A vergonha, muita vergonha. O remorso. O arrependimento. A lembrança do ultrassom e do coraçãozinho batendo. A dura experiência de ter vivido tanto tempo ao lado de um psicopata que fazia da minha vida um inferno e que eu não percebia, e o ódio ao perceber e ter que lidar com ele até poder estar livre.

Só pra constar: a relação com esse psicopata não terminou de uma hora para outra. Ele me perseguiu. Eu tive que fugir quase na véspera de natal para Rio Claro em São Paulo, escondida dentro de um carro até sair do meu condomínio, para a casa de um amigo e ficar lá por vários dias. Voltei escondida também e precisei ficar sem atender telefone e sair de casa por muito tempo até ficar segura. No ano novo precisei quase de uma escolta para ir até a praia, todos tinham muito medo dele aparecer. Hoje não tenho mais notícias dele, graças a Deus, mas eu podia ter morrido, ou alguém da minha família.

Contei essa história para mostrar que nada é tão simples quanto parece no que se refere ao aborto. Se eu queria ter feito? Não. Eu fui obrigada pela minha mãe. Sofri muito. Mas hoje entendo os motivos dela. Não a odeio mais por isso. Se fosse com a minha filha talvez eu agisse da mesma maneira. Mas nem por isso eu fiz tranquilamente, sem remorso, sem vergonha, sem tristeza, sem pesar, e sem pensar todos os dias na minha vida  nesse bebê que poderia estar ao meu lado agora.